A Cisco Systems vai eliminar até 5.500 postos de trabalho — cerca de 7% da sua força de trabalho — à medida que o maior fabricante mundial de equipamentos de rede redireciona os investimentos dos switches e routers tradicionais para a segurança, o software na nuvem e os serviços por subscrição.
A empresa de San Jose anunciou a reestruturação na quarta-feira, com os resultados trimestrais a mostrarem a pressão por detrás da mudança. A receita para o período que terminou a 30 de julho caiu 2% para 12,6 mil milhões de dólares, incluindo a venda da divisão de descodificadores, mesmo com o lucro líquido a subir 21% para 2,8 mil milhões de dólares.
A Cisco afirmou que os cortes começarão no primeiro trimestre do seu novo ano fiscal e que espera reinvestir substancialmente toda a economia em negócios de crescimento mais rápido. O anúncio dos resultados estimou a redução até 5.500 posições em todo o mundo e descreveu-a como uma reestruturação de competências, e não uma simples contracção.
A liderança em hardware encontra uma mudança no software
Durante décadas, a Cisco prosperou vendendo switches e routers que direcionam o tráfego através de redes empresariais e da internet pública. Estes equipamentos continuam a ser essenciais para a computação moderna, mas os clientes estão cada vez mais a alugar poder computacional e software aos fornecedores de cloud em vez de construir e operar cada camada por conta própria.
As redes definidas por software também transferem mais controlo de equipamentos especializados para sistemas programáveis. Isto não elimina a procura de hardware de rede, mas altera o local onde os lucros são gerados e como os clientes adquirem tecnologia. A Cisco está a responder a esta mudança enfatizando as assinaturas recorrentes, a análise, a colaboração, a Internet das Coisas e a cibersegurança.
A Reuters noticiou que a reestruturação acarretará encargos de até 400 milhões de dólares no primeiro trimestre. A empresa afirmou que os cortes de pessoal serão concentrados nas áreas onde o crescimento abrandou, enquanto as contratações e os investimentos continuarão em negócios considerados estratégicos.
Os números revelam dois Ciscos
Os resultados da Cisco mostram um núcleo de negócios consolidado e um conjunto de novos negócios em expansão. A receita com switches diminuiu no trimestre, enquanto a receita com encaminhamento também apresentou um desempenho fraco. Em contrapartida, as vendas de segurança cresceram significativamente, a colaboração aumentou e a receita diferida associada às subscrições continuou a crescer.
O relatório anual da empresa para a Comissão de Valores Mobiliários (SEC) mostra que a receita com segurança cresceu 13% no ano fiscal de 2016 e a receita com colaboração aumentou 9%. O relatório detalha ainda a pressão competitiva dos fabricantes de equipamentos de baixo custo, arquiteturas na cloud e clientes que procuram redes abertas e programáveis.
A receita total do ano fiscal foi de 49,2 mil milhões de dólares, ou 48,7 mil milhões de dólares após a normalização do segmento de equipamentos para o consumidor final (CPEE) vendidos, com um crescimento ajustado de 3%. Para o novo trimestre, a Cisco prevê um crescimento das receitas entre -1% e +1%. Esta perspetiva sugere que a empresa não pode contar com as suas linhas de produtos consolidadas para alcançar a expansão esperada pelos investidores.
O Washington Post noticiou que a redução afetará quase 7% dos cerca de 74.000 funcionários. A dimensão da medida torna-a numa das ações mais significativas em relação à força de trabalho sob a gestão do CEO Chuck Robbins, que assumiu o cargo no ano passado.
As aquisições constroem o próximo portefólio
A Cisco tem utilizado as aquisições para agregar as capacidades que a sua reestruturação visa favorecer. Este mês, adquiriu a Jasper Technologies, uma plataforma para gestão de dispositivos conectados, e concluiu a compra da CloudLock, uma empresa de segurança na cloud. O seu ficheiro de investidores lista as transações da Jasper e da CloudLock entre uma série de movimentos em direção a mercados baseados em subscrições e com utilização intensiva de software.
Estas aquisições complementam os produtos internos de deteção de ameaças, identidade, colaboração e gestão de data centers. O desafio da Cisco é integrá-los numa plataforma coerente e vendê-los através de uma organização global historicamente otimizada para grandes transações de hardware.
A segurança apresenta um caso de crescimento particularmente claro. O Relatório Anual de Segurança da Cisco de 2016 descreve ataques de ransomware cada vez mais sofisticados, publicidade maliciosa e ataques que se propagam através de sistemas interligados. Os clientes que enfrentam estas ameaças podem valorizar mais a monitorização contínua e as atualizações recorrentes do que a compra pontual de equipamentos.
O reinvestimento não atenua a perturbação
A insistência da Cisco em reinvestir as poupanças obtidas diferencia o plano de um programa de austeridade convencional. Ainda assim, representa uma grande perturbação para os colaboradores. Os cortes seguem-se a rondas recorrentes de reestruturação em grandes empresas tecnológicas, à medida que a computação em nuvem altera a procura por servidores, armazenamento e equipamentos de rede.
O jornal The Guardian observou que o lucro da Cisco aumentou mesmo com a queda das receitas, sublinhando que os despedimentos são motivados menos por dificuldades financeiras imediatas do que por uma avaliação estratégica sobre os mercados de futuros. A empresa é rentável, tem um cash-flow robusto e capacidade de investir; a sua preocupação é que a composição da sua força de trabalho e dos seus produtos precisam de mudar mais rapidamente.
Isto torna a execução mais complexa. A Cisco precisa de reduzir as funções ligadas a negócios mais lentos sem enfraquecer o suporte aos produtos que ainda geram a maior parte da sua receita. Ela precisa de contratar especialistas em software e segurança num mercado de trabalho competitivo. E precisa de convencer os clientes de que um fornecedor associado a equipamentos de rede proprietários pode oferecer serviços flexíveis da era da cloud.
Robbins apresenta a reestruturação como uma decisão de investimento: os recursos serão direcionados para a segurança, a Internet das Coisas, a colaboração, os centros de dados de última geração e a computação em nuvem. O teste será se estas categorias crescerão suficientemente rápido para compensar a pressão na comutação e no encaminhamento — e se a receita recorrente de software poderá tornar os resultados da Cisco mais previsíveis.
Os 5.500 postos de trabalho representam, assim, mais do que uma mera linha de custos. Marcam uma tentativa de redefinir a fronteira entre a Cisco que construiu a infraestrutura física da internet e a empresa que ambiciona tornar-se. Os lucros da primeira financiam a segunda, mas o anúncio de quarta-feira demonstra que a transição acarreta agora um custo humano substancial.