Cinco infeções por Zika foram associadas a mosquitos locais numa área de 3,9 quilómetros quadrados de Miami Beach, expandindo o surto na Florida para uma segunda zona de transmissão ativa e levando as autoridades federais a alertar as mulheres grávidas para que evitem visitar um dos distritos turísticos mais movimentados do país.

O governador Rick Scott anunciou na sexta-feira que os pacientes — três homens e duas mulheres da Florida, Nova Iorque, Texas e Taiwan — foram provavelmente infectados na área que se estende da 8ª à 28ª Rua, entre o oceano e o Canal Intracostal. Os novos casos elevam o número total de infeções transmitidas localmente na Florida para 36.

Os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) alargaram imediatamente as suas recomendações de viagem relacionadas com a gravidez para além do bairro de Wynwood, a norte do centro de Miami, onde foi identificado o primeiro surto reconhecido de Zika transmitido por mosquitos nos Estados Unidos continentais no mês passado. O registo de notícias do CDC de 2016 lista o alerta para Miami Beach e as orientações atualizadas sobre os cuidados a bebés, emitidas a 19 de agosto.

Uma segunda zona de transmissão altera o risco

Miami Beach apresenta um desafio de saúde pública diferente de Wynwood. É uma cidade densamente povoada, internacionalmente conhecida e repleta de hotéis, restaurantes e atividades ao ar livre. Os visitantes podem passar lá apenas alguns dias e regressar a casa antes de se aperceberem dos sintomas — ou mesmo sem os desenvolver, como acontece na maioria das infeções por Zika.

O diretor do CDC, Dr. Thomas Frieden, afirmou que os investigadores identificaram uma nova área de transmissão ativa e vários outros casos isolados de aparente disseminação por mosquitos no condado de Miami-Dade. Numa teleconferência na sexta-feira, enfatizou que as mulheres grávidas devem proteger-se contra as picadas de mosquitos e a transmissão sexual, evitando as zonas designadas.

A recomendação de viagem aplica-se às mulheres grávidas, uma vez que a infeção durante a gravidez pode causar microcefalia e outros defeitos cerebrais graves no feto. As mulheres que viveram ou visitaram a região de Miami Beach após 14 de julho devem consultar um médico sobre a realização de testes, enquanto os parceiros das mulheres grávidas devem usar preservativos de forma consistente ou abster-se de relações sexuais durante toda a gravidez.

Cinco casos, um problema de vigilância mais abrangente

O pequeno número de infecções confirmadas não descreve necessariamente a totalidade do surto. Cerca de quatro em cada cinco pessoas infetadas não apresentam sintomas, o que torna o Zika difícil de identificar nas consultas médicas de rotina. Os investigadores de saúde devem combinar entrevistas, histórico de viagens, exames laboratoriais e vigilância de mosquitos para determinar onde está a ocorrer a transmissão.

O programa PBS NewsHour noticiou que o Departamento de Saúde da Flórida isolou os cinco casos depois de não ter encontrado qualquer ligação com viagens internacionais. Os diferentes locais de residência dos doentes ajudaram os investigadores a identificar Miami Beach como o local de exposição comum.

O primeiro foco de contágio em Miami, no bairro de Wynwood, já tinha dado origem a um alerta de viagem doméstica sem precedentes. As autoridades de saúde acreditam agora que o controlo intensivo de mosquitos reduziu a área afetada naquele local. No entanto, o foco em Miami Beach demonstra que suprimir uma concentração específica não impede o aparecimento do vírus noutros locais onde o mosquito Aedes aegypti está presente.

O controlo de mosquitos entra em conflito com a realidade urbana

O Aedes aegypti vive perto de pessoas, pica durante o dia e pode reproduzir-se em quantidades muito pequenas de água parada. Os seus hábitos dificultam o controlo convencional. As equipas estão a inspecionar propriedades, a eliminar os locais de reprodução e a aplicar larvicidas e adulticidas, enquanto os agentes de saúde pública realizam visitas domiciliárias e oferecem testes.

A Reuters noticiou que as autoridades federais emitiram o alerta depois de a Florida ter confirmado a transmissão ativa do vírus no destino turístico. O estado solicitou capacidade de testagem adicional, 5.000 kits de laboratório e 10.000 kits de prevenção para grávidas.

Scott procurou equilibrar o alerta de saúde com a preocupação com o turismo, um setor central da economia do sul da Flórida. Salientou que a zona designada abrange uma área limitada e afirmou que o estado iria continuar com medidas de controlo rigorosas. No entanto, a precisão geográfica de um mapa não garante que os mosquitos infetados se mantenham dentro dos seus limites, razão pela qual as diretrizes federais também recomendam precauções redobradas em todo o Condado de Miami-Dade.

As precauções durante a gravidez tornam-se a principal defesa

Não existe vacina licenciada nem tratamento que elimine a infeção pelo vírus Zika. A prevenção depende, portanto, do uso de repelentes, roupas compridas, redes nas janelas, ar condicionado (quando disponível), eliminação de água estagnada e medidas para prevenir a transmissão sexual.

A reportagem da revista Time sobre o alerta informou que os cinco novos casos em Miami Beach elevaram o total local da Flórida para 36 e colocaram uma segunda parte de Miami sob restrições de viagem relacionadas com a gravidez. As autoridades federais disseram que as grávidas que precisem de entrar nas áreas afetadas devem consultar os profissionais de saúde e seguir rigorosamente as precauções contra mosquitos.

As diretrizes também criam novas responsabilidades para os médicos fora da Flórida. Uma paciente grávida noutro estado pode ter visitado Miami Beach semanas antes e precisar de fazer o teste. Uma vez que a interpretação dos resultados laboratoriais pode ser complicada por infeções prévias por dengue e uma vez que a capacidade de testagem é limitada, são essenciais históricos de viagem precisos e datas de exposição claras.

O episódio serve também como teste para a comunicação pública. Na quinta-feira, as autoridades investigavam uma possível transmissão sem confirmar um surto em Miami Beach, como noticiou a PBS enquanto a investigação estava em curso. A confirmação de sexta-feira ilustra por que razão as autoridades por vezes mudam as suas orientações rapidamente à medida que as entrevistas e as provas laboratoriais se acumulam.

Um surto continental ainda nos seus estágios iniciais

A Flórida continua a ser o único estado com transmissão local contínua reconhecida de mosquitos, mas foram relatados casos importados em todo o país. O risco é maior onde os mosquitos Aedes são comuns e onde os viajantes regressam regularmente de áreas afetadas da América Latina e das Caraíbas.

O anúncio de Miami Beach torna o controlo da doença mais complexo. O surto em Wynwood ocorreu num bairro residencial e comercial compacto; Miami Beach gera um fluxo constante de visitantes que podem levar o vírus de volta a locais com mosquitos competentes. O Washington Post descreveu o novo alerta como uma expansão imediata da resposta adotada no sul da Flórida.

As autoridades de saúde pública não recomendam que a população em geral evite Miami Beach. Para a maioria dos adultos, a infeção pelo Zika é ligeira ou passa despercebida. A política, em vez disso, está calibrada para um desfecho de baixa probabilidade, mas potencialmente catastrófico: lesão fetal após infeção durante a gravidez.

A descoberta de cinco casos não estabelece durante quanto tempo a transmissão irá durar ou até que ponto se espalhou. Estabelece, sim, que o vírus encontrou outro foco urbano. Até que a vigilância e o controlo dos mosquitos mostrem o contrário, a intervenção mais importante é a informação: informar as grávidas onde ocorreu a exposição, possibilitar a realização de testes e reduzir tanto a transmissão por mosquitos como a transmissão sexual antes que as infeções resultem em gravidezes afetadas por danos irreversíveis.