Hillary Clinton garantiu os 2.383 delegados necessários para se tornar a provável candidata democrata à presidência esta semana, tornando-se a primeira mulher na história americana a liderar a chapa de um grande partido político e estabelecendo uma disputa nas eleições gerais com o republicano Donald Trump.
Clinton ultrapassou o limite necessário graças a uma combinação de delegados conquistados nas primárias e nas assembleias partidárias, além de compromissos de líderes partidários conhecidos como superdelegados. A contagem da Associated Press na noite de segunda-feira colocou-a exatamente com 2.383 delegados, após uma ronda final de entrevistas com superdelegados que ainda não se tinham comprometido. Venceu depois na Califórnia, Nova Jérsia, Novo México e Dakota do Sul na terça-feira, conferindo à sua vitória a força de uma noite decisiva nas primárias finais.
Um marco após 24 anos no panorama nacional
No Brooklyn Navy Yard, Clinton disse aos seus apoiantes que tinham atingido um marco histórico e ligou a sua conquista a gerações de mulheres que lutaram pela igualdade política. O cenário e o discurso foram concebidos para unir duas ideias: a importância histórica singular da nomeação e o argumento da campanha de que representa uma continuidade com uma luta americana mais ampla pela inclusão.
No seu discurso de vitória, a 7 de Junho, Hillary Clinton elogiou o senador Bernie Sanders e os seus apoiantes por terem trazido a desigualdade económica e o financiamento de campanhas para o centro do debate. Esta pediu aos democratas que se unissem, mas Sanders não reconheceu a derrota e afirmou que iria disputar as primárias do Distrito de Columbia antes de levar as propostas da sua campanha à convenção.
A conquista acontece após a campanha falhada de Clinton em 2008, quando Barack Obama a derrotou numas primárias prolongadas e se tornou o primeiro presidente negro. Desta vez, ela entrou na corrida com um apoio partidário mais forte, uma vantagem expressiva entre os eleitores negros e uma ampla organização nacional. A reportagem da TIME sobre o marco observou que o seu significado corria o risco de ser obscurecido pelo conflito e controvérsia incomuns que rodearam as campanhas de ambos os partidos.
A matemática dos delegados expõe as tensões partidárias
A maioria de Clinton inclui centenas de superdelegados que só votarão formalmente na Convenção Nacional Democrata em Filadélfia. Sanders argumentou que as organizações de comunicação social não deveriam contabilizar estes representantes antes da convenção e prometeu persuadir alguns a mudar de ideias. No entanto, de acordo com as regras do partido, têm liberdade para declarar as suas preferências, e a grande maioria já manifestou apoio a Clinton.
A distinção é politicamente relevante, mesmo que não altere o resultado provável. Sanders venceu mais de 20 disputas e mobilizou milhões de eleitores jovens e independentes. A sua campanha defende que a vantagem de Clinton entre os membros tradicionais do partido demonstra um sistema inclinado a favor dos candidatos já estabelecidos. Clinton contrapõe, afirmando que também conquistou mais delegados empenhados e mais milhões de votos populares.
O relato detalhado da AP sobre os delegados afirmou que Clinton alcançou a maioria depois de vencer em Porto Rico e receber uma série de compromissos de superdelegados. Na noite de terça-feira, as vitórias nas principais disputas restantes eliminaram grande parte da força prática das objecções à projecção anterior.
Uma reportagem da CBS News sobre a contagem descreveu o número de 2.383 como a combinação exigida pelas regras democratas, referindo, no entanto, que os superdelegados podem, tecnicamente, mudar os seus votos. O partido enfrenta agora um desafio menos matemático: incorporar os eleitores e as exigências políticas de Sanders.
Clinton aproxima-se de Trump
No seu discurso em Brooklyn, Clinton contrastou a sua campanha com a de Trump. Descreveu a eleição como uma escolha entre progresso inclusivo e divisão, criticando a proposta de Trump de proibir a entrada de muçulmanos nos Estados Unidos, os seus ataques a imigrantes e o seu temperamento. Trump, que se tornou o provável candidato republicano após a desistência dos seus restantes rivais em Maio, atacou Clinton pelo seu discernimento, pelas suas práticas com os e-mails e pelos seus laços com o establishment político.
A disputa apresenta coligações bastante distintas. Clinton conta com o apoio das mulheres, das minorias, dos eleitores com formação universitária e da base democrata. Trump demonstra força entre os eleitores brancos sem diploma universitário e defende que o comércio, a imigração e a política externa prejudicaram os trabalhadores norte-americanos. Ambos os candidatos chegam à eleição geral com taxas de rejeição excecionalmente elevadas.
notícia do The Guardian, vinda de Brooklyn , Clinton elogiou Sanders antes de caracterizar a candidatura de Trump como motivada pelo medo. Sanders, falando mais tarde em Santa Monica, insistiu que o movimento que construiu continuaria até à convenção.
A nomeação altera a representação, não os encargos de campanha
As mulheres conquistaram o direito constitucional ao voto em todo o país com a ratificação da 19ª Emenda em 1920, mas nunca nenhuma mulher liderou uma chapa presidencial democrata ou republicana. Geraldine Ferraro tornou-se a primeira mulher nomeada para vice-presidente por um grande partido em 1984; Sarah Palin tornou-se a segunda em 2008.
O percurso de Clinton — primeira-dama, senadora por Nova Iorque, secretária de Estado e agora provável candidata — torna esta vitória indissociável de uma longa carreira governativa. Os apoiantes veem uma experiência incomparável; os críticos, o poder do establishment. Uma reportagem da Vogue, publicada quando ela cruzou a linha de chegada , contabilizou 1.812 delegados comprometidos e 571 superdelegados naquele momento, sublinhando como tanto os eleitores como os dirigentes partidários produziram a maioria.
A nomeação ainda não é formal. Os delegados votarão em Filadélfia em julho, e Sanders mantém-se na corrida. Nem mesmo uma candidatura histórica elimina os obstáculos que Clinton enfrenta: uma investigação em curso do FBI sobre a utilização de um servidor de correio electrónico privado, a desconfiança entre alguns progressistas e um adversário volátil que subverteu a estratégia convencional de campanha.
Ainda assim, a barreira em si foi ultrapassada. A avaliação contemporânea da conquista de Clinton observou que as mulheres há muito que ocupavam posições de poder nacional sem receberem a nomeação presidencial de um grande partido. Na noite de terça-feira, essa possibilidade deixou de ser uma aspiração e passou a ser uma realidade.
A unidade torna-se o teste imediato
O Presidente Obama felicitou Clinton e agradeceu a Sanders por mobilizar milhões de americanos. Encontrou-se com Sanders na Casa Branca na quinta-feira, um passo em direção a um apoio formal e a um desfecho controlado das primárias. A senadora Elizabeth Warren também declarou apoio a Clinton, acrescentando uma voz progressista de destaque ao esforço de consolidação.
Clinton precisa de convencer os apoiantes de Sanders de que a sua influência vai para além dos elogios simbólicos. As disputas sobre a plataforma política, como o salário mínimo, os custos da universidade, os cuidados de saúde e a regulamentação de Wall Street, serão testes decisivos. Sanders precisa de decidir se continuar a contestar a nomeação fortalece estes objectivos ou atrasa a resposta do partido a Trump.
A eleição geral começa com a história de um lado e a rutura do outro. Os 2.383 delegados de Clinton tornam a sua conquista mensurável; a reação em Brooklyn tornou-a visível. Se a primeira mulher a liderar a chapa de um grande partido se tornará a primeira mulher presidente dependerá de um eleitorado muito maior — e de saber se os democratas conseguirem transformar umas primárias renhidas numa campanha unificada.