Na quinta-feira, Hillary Rodham Clinton tornou-se a primeira mulher a aceitar a nomeação presidencial de um dos principais partidos norte-americanos, pedindo a uma coligação democrata dividida que se unisse em torno de um programa de governo baseado em investimentos económicos, alargamento de direitos e uma liderança nacional estável. O seu discurso em Filadélfia transformou uma candidatura inovadora no argumento central de uma campanha eleitoral geral.
“Esta noite, alcançámos um marco na caminhada da nossa nação para uma união mais perfeita”, disse Clinton, de acordo com a transcrição publicada do seu discurso. Ela aceitou a nomeação “com humildade, determinação e confiança ilimitada na promessa da América”, e depois ofereceu-se como um contrapeso pragmático à promessa de mudança disruptiva de Donald J. Trump.
Uma votação histórica após uma primária desgastante
Hillary Clinton garantiu a nomeação na terça-feira, quando os votos do Dakota do Sul a levaram a ultrapassar os 2.383 delegados necessários. O senador Bernie Sanders, do Vermont, que conquistou mais de 13 milhões de votos nas primárias e nos caucus e impulsionou o partido para uma plataforma mais progressista, propôs a suspensão das regras e a nomeação de Clinton por aclamação após a votação nominal. A cobertura da convenção pelo The Washington Post registou o momento e o limite de delegados.
O simbolismo ia para além dos procedimentos partidários. Clinton estava onde nunca nenhuma mulher estivera numa convenção de um grande partido, 96 anos após a ratificação da emenda constitucional que garantia o direito de voto às mulheres. Invocou a mãe e a filha e descreveu a nomeação como uma brecha no “teto de vidro mais alto e mais difícil”. A reportagem do Texas Tribune, publicada na altura, colocou este marco no centro da noite final.
No entanto, a convenção começou com uma visível resistência por parte de alguns delegados de Sanders e com a demissão da presidente do Comité Nacional Democrata, Debbie Wasserman Schultz, após a fuga de e-mails que mostravam dirigentes do partido a menosprezar Sanders. Clinton elogiou Sanders e afirmou que a sua campanha colocou a justiça económica e social no centro da sua plataforma. O desafio agora é converter este reconhecimento em entusiasmo entre os eleitores mais jovens e progressistas que desconfiam dos seus laços com as instituições financeiras e do seu historial em matéria de comércio e política externa.
Um argumento de coligação em vez de uma promessa solitária
Clinton utilizou repetidamente uma linguagem colectiva, rejeitando a ideia de que um líder sozinho possa resolver os problemas nacionais. Esta reconheceu o papel das famílias, dos professores, da polícia, dos empresários, dos sindicatos e dos grupos cívicos, e apresentou o governo como um parceiro capaz de alargar as oportunidades. O vídeo completo do discurso, transmitido pela C-SPAN, mostrou um discurso mais acusatório e programático do que inspirador, com aplausos dirigidos a grupos e políticas específicas.
O seu programa incluía a faculdade gratuita, alívio para os empréstimos estudantis existentes, maiores investimentos em infraestruturas, expansão da educação infantil, aumento do salário mínimo, igualdade salarial, licença familiar remunerada e uma opção pública dentro da Lei de Acesso à Saúde (Affordable Care Act). Prometeu aumentos de impostos para empresas e pessoas ricas para financiar investimentos e afirmou que nenhuma família da classe média enfrentaria um aumento de impostos.
A plataforma democrata de 2016 fornece a estrutura política: um salário mínimo federal de 15 dólares, direitos de negociação colectiva mais fortes, expansão da Segurança Social, acções contra as alterações climáticas, alterações no sistema de justiça criminal e um caminho para a cidadania para imigrantes indocumentados. Clinton não adotou todos os mecanismos propostos por Sanders, mas a plataforma reflete a sua influência em relação às propinas escolares, à saúde e à regulação financeira.
Experiência apresentada como uma vantagem
Clinton dedicou grande parte do discurso à competência governativa. Citou a sua experiência como primeira-dama, senadora por Nova Iorque e secretária de Estado, retratando o detalhe das políticas públicas e a formação de coligações como disciplinas necessárias, e não como evidência da política convencional. O seu marido, o ex-presidente Bill Clinton, e o presidente Obama, em noites anteriores, apresentaram o mesmo argumento através de biografias e depoimentos em primeira mão.
O argumento responde a uma dificuldade persistente: muitos eleitores conhecem o currículo de Clinton, mas mantêm-se céticos quanto à sua honestidade e motivações. A controvérsia sobre a utilização de um servidor de e-mail privado no Departamento de Estado continua depois de o diretor do FBI ter descrito o seu manuseamento de informações confidenciais como extremamente negligente, mas ter recomendado que não fossem apresentadas acusações. Clinton não comentou o assunto na quinta-feira.
Em vez disso, ela enquadrou a eleição em torno do temperamento e da preparação. Questionou se Trump poderia ser confiável com armas nucleares, defendeu as alianças e disse que os Estados Unidos devem liderar com força e diplomacia. As suas declarações completas, publicadas pela Time, combinaram alertas sobre Trump com promessas de trabalhar em conjunto com membros de outros partidos.
Segurança, armas e política social
Clinton prometeu derrotar o Estado Islâmico através de uma inteligência melhorada, alianças mais fortes e ações militares direcionadas, ao mesmo tempo que rejeitava tanto as grandes guerras terrestres como os testes religiosos para a imigração. Ela defendeu uma reforma abrangente da imigração e a aceitação dos refugiados mediante uma triagem rigorosa. Estas posições acirram a disputa com Trump sobre fronteiras, alianças e o uso do poder americano.
No seu país, ela apoiou a verificação universal de antecedentes para a compra de armas, as restrições às armas de assalto e as medidas para impedir que agressores domésticos e suspeitos de terrorismo tenham acesso a armas de fogo. Afirmou ainda que os departamentos de polícia precisam de melhor formação e da confiança da comunidade, enquanto os polícias precisam de apoio e proteção. A convenção contou com a presença de familiares de pessoas mortas em confrontos com a polícia, bem como de representantes das forças de segurança, ilustrando a tentativa da coligação de abordar as disparidades raciais sem tratar a segurança pública como uma preocupação concorrente.
Um resumo da plataforma adoptada, publicado pela revista Time, detalha os compromissos do partido em relação às leis sobre armas, ao direito ao aborto, à imigração e à protecção da comunidade LGBT. Estas posições mobilizarão os principais eleitores democratas, mas também exporão a chapa a ataques republicanos em estados conservadores.
De marco histórico a teste eleitoral geral
O senador da Virgínia, Tim Kaine, candidato a vice-presidente na chapa de Hillary Clinton, aceitou a nomeação na quarta-feira. Ex-governador e ex-presidente da Câmara de Richmond, fluente em espanhol, Kaine reforça a ênfase da campanha na experiência e numa administração gradual. Alguns progressistas criticaram a escolha por a considerarem demasiado centrista, especialmente em relação ao comércio e à regulação bancária.
A convenção procurou alargar a coligação de Clinton para além dos democratas. Oficiais militares reformados, autoridades de segurança nacional, republicanos e o ex-presidente da Câmara independente de Nova Iorque, Michael Bloomberg, compareceram em seu nome. A mensagem era que o temperamento e as divergências políticas de Trump justificavam a mudança de partido. Os republicanos responderam que Clinton representava a continuidade de uma administração Obama que responsabilizavam pelo crescimento lento, pelo aumento dos custos dos cuidados de saúde e pela instabilidade no estrangeiro.
A cobertura completa da última noite pela C-SPAN mostra a estrutura deste apelo: testemunhos sobre o trabalho de Clinton na iniciativa privada, compromissos políticos com as bases eleitorais democratas e uma argumentação sobre a aptidão da campanha para a presidência. Agora, a campanha terá de sustentar estes três elementos fora do centro de convenções.
A nomeação em si já é um facto político de significado duradouro, mas o discurso de Clinton insistiu que o simbolismo não chega. O seu desafio é persuadir os eleitores de Sanders de que o compromisso pode gerar mudanças significativas, os independentes de que a experiência supera a desconfiança e um eleitorado polarizado de que a acção colectiva pode competir com a promessa de liderança singular de Trump. A primeira mulher a liderar a lista de um grande partido entra na eleição geral com a história já consolidada e a maioria ainda por conquistar.