Os empregadores norte-americanos criaram 255 mil vagas de emprego em Julho, um número substancialmente superior ao previsto pelos economistas, enquanto os salários subiram e o desemprego se manteve nos 4,9%, informou o Departamento do Trabalho na sexta-feira. O ganho generalizado, após um aumento revisto de 292.000 vagas em Junho, fornece fortes indícios de que a desaceleração abrupta de Maio foi temporária.

O relatório do Departamento de Estatísticas do Trabalho mostrou contratações em diversos setores, incluindo serviços profissionais, saúde, finanças, lazer e hotelaria, e governo. O salário médio por hora subiu 8 cêntimos, ou 0,3%, para 25,69 dólares, e ficou 2,6% acima do registado no ano anterior. A taxa de participação na força de trabalho aumentou ligeiramente, em um décimo de ponto percentual, para 62,8%.

Dois meses intensos restauram o cenário primaveril

O crescimento do número de empregos em maio, inicialmente divulgado em 38.000, foi revisto para 24.000. Este fraco resultado gerou a preocupação de que a expansão estivesse a perder força após quase sete anos. A recuperação em Junho e o aumento em Julho elevaram a média de criação de emprego nos últimos três meses para 190.000, muito acima do ritmo geralmente necessário para acompanhar o crescimento populacional.

A taxa de desemprego não diminuiu porque mais pessoas entraram no mercado de trabalho e encontraram emprego ou começaram a procurar. A taxa de emprego em relação à população também aumentou para 59,7%. Estas variações são modestas, mas melhoram a qualidade de um relatório que, de outra forma, poderia ter reflectido a saída de pessoas do mercado de trabalho.

O relatório da NPR na altura referia que os analistas previam a criação de aproximadamente 180 mil empregos. A surpresa foi suficientemente grande para alterar as expectativas do mercado financeiro em relação à Reserva Federal, que manteve as taxas de juro inalteradas desde dezembro, no meio da incerteza global e da volatilidade dos dados económicos internos.

O setor dos serviços lidera o ranking, enquanto o setor da indústria transformadora se mantém em baixa

Os serviços profissionais e empresariais criaram 70.000 postos de trabalho, incluindo ganhos em design de sistemas informáticos, serviços de arquitetura e engenharia e trabalho temporário. A área da saúde acrescentou 43.000 vagas, o lazer e a hotelaria 45.000, as atividades financeiras 18.000 e o setor público 38.000. O emprego na construção civil teve pouca variação, enquanto o setor da indústria transformadora acrescentou 9.000 empregos.

A composição da economia revela uma actividade ainda impulsionada pelo sector dos serviços domésticos, em vez da produção industrial. Os exportadores enfrentam um dólar forte e uma fraca procura externa, enquanto os preços mais baixos da energia continuam a restringir os investimentos em mineração e equipamento. Estas pressões ajudam a explicar porque é que o consumo robusto e a contratação a um ritmo acelerado coexistem com o baixo investimento fixo das empresas.

A análise da Casa Branca aos dados de Julho indicou que as empresas privadas criaram 15 milhões de empregos desde o início de 2010 e que o crescimento total da folha de pagamentos se manteve durante um período recorde. O governo estimou que as tendências demográficas exigem cerca de 80.000 novos empregos por mês para manter o desemprego estável, o que coloca o ganho de Julho muito acima da taxa de substituição.

Os salários aumentam, mas a participação continua baixa

Os ganhos médios por hora aumentaram 2,6% nos últimos 12 meses, empatando com a taxa anual mais rápida da recuperação económica. Com a inflação no consumidor abaixo dos 2%, este crescimento traduz-se num maior poder de compra para muitos trabalhadores. O horário de trabalho médio semanal também aumentou em seis minutos, atingindo as 34,5 horas, outra fonte de aumento da remuneração semanal.

No entanto, os benefícios continuam a ser desiguais. A taxa de participação na força de trabalho está vários pontos percentuais abaixo do nível pré-recessão, em parte porque a população é mais velha, mas também porque muitos adultos em idade ativa permanecem fora do mercado de trabalho. O número de pessoas que trabalhavam a tempo parcial por razões económicas era de 5,9 milhões, e 2 milhões de pessoas estavam desempregadas há 27 semanas ou mais.

Uma análise do Comité de Políticas Republicanas enfatizou que a participação se mantém próxima do mínimo em 38 anos e defendeu que a taxa de desemprego oficial subestima a fragilidade do mercado de trabalho. Esta crítica identifica uma restrição real, embora o envelhecimento demográfico explique parte do declínio a longo prazo.

Em contrapartida, os gráficos elaborados pela equipa democrata do Comité Económico Conjunto destacaram 217.000 empregos no sector privado e a aceleração dos salários. Em conjunto, as duas análises ilustram a principal tensão do relatório: a recuperação está a gerar emprego a um ritmo sólido, mas não restaurou os padrões de emprego que prevaleciam antes da crise financeira.

A Reserva Federal ganha espaço para agir

Em Julho, as autoridades da Fed mantiveram a meta para a taxa de juro entre 0,25% e 0,50%, afirmando que os riscos de curto prazo para as perspectivas económicas tinham diminuído e o mercado de trabalho tinha-se fortalecido. A declaração de política monetária de 27 de julho também referia que a inflação permanecia abaixo da meta de 2% do banco central.

O relatório de sexta-feira reforça a ideia de que o emprego está a aproximar-se da meta estabelecida pela Fed, mas não garante um aumento da taxa de juro em setembro. As autoridades precisam de avaliar outro relatório sobre o emprego, os dados sobre a inflação, as condições financeiras globais e o fraco ritmo de crescimento económico do primeiro semestre. O Produto Interno Bruto (PIB) cresceu a uma taxa anual de 1,2% no segundo trimestre, de acordo com a estimativa inicial do Governo.

Salários mais elevados podem ser o sinal mais importante para a política monetária. Se os aumentos salariais continuarem à medida que a capacidade ociosa diminui, o rendimento das famílias e a inflação poderão subir, incentivando a Fed a remover gradualmente as medidas de estímulo. Se a participação aumentar ainda mais, a economia poderá contratar mais trabalhadores sem gerar muita pressão inflacionista.

A força económica entra no debate eleitoral

O Secretário do Trabalho, Thomas Perez, afirmou que o relatório demonstrou progressos duradouros, citando os 15 milhões de empregos criados no sector privado desde 2010. A sua declaração oficial reconheceu também o trabalho ainda inacabado em relação a salários, licença remunerada e acesso da força de trabalho.

Os republicanos argumentam que o crescimento continua a ser demasiado lento e que a baixa participação, a estagnação das comunidades e os encargos regulamentares demonstram que a recuperação falhou com muitas famílias. Os Democratas apontam para a criação sustentada de emprego, a redução do desemprego e o aumento dos rendimentos, ao mesmo tempo que propõem políticas de infraestruturas, educação e apoio à família. O mesmo relatório fornece provas tanto do progresso alcançado como da lacuna ainda existente.

Uma avaliação publicada antes da divulgação dos dados de sexta-feira apontou para um crescimento médio de cerca de 206 mil vagas de emprego no ano anterior e observou que o desemprego de longa duração tinha diminuído. Os dados de Julho reforçam esta tendência e reduzem a probabilidade de o fraco resultado de Maio ter marcado uma mudança de rumo.

A conclusão mais clara é mais concisa do que as alegações políticas: a contratação está forte, os salários estão a crescer rapidamente e mais pessoas entraram no mercado de trabalho em Julho. A expansão enfrenta ainda fracos investimentos e uma baixa participação, mas o mercado de trabalho inicia o segundo semestre do ano com um ímpeto consideravelmente superior ao apresentado há dois meses.