Ted Cruz conquistou 36 dos 42 delegados republicanos do Wisconsin e Bernie Sanders derrotou Hillary Clinton por mais de 13 pontos percentuais na terça-feira, impondo reveses decisivos aos principais candidatos de ambos os partidos e aumentando a possibilidade de disputas prolongadas pela nomeação.

Cruz obteve cerca de 48% dos votos dos republicanos, em comparação com aproximadamente 35% para Donald Trump e 14% para John Kasich. Sanders recebeu quase 57% dos votos democratas, contra 43% de Clinton. Os resultados representaram muito mais do que vitórias simbólicas: as regras republicanas do Wisconsin, que previam a divisão dos votos por distrito, permitiram a Cruz conquistar quase todos os delegados, dificultando a obtenção dos 1.237 necessários para a vitória na convenção à primeira volta por Trump.

Os resultados representaram vitórias claras para ambos os candidatos, após campanhas que se tornaram excecionalmente pessoais e controversas. Cruz apresentou a sua vitória como prova de que os republicanos se estavam a unir em torno dele. Sanders afirmou que o Wisconsin demonstrou que a sua campanha insurgente poderia continuar competitiva a nível nacional, mesmo com Clinton a manter uma vantagem substancial em delegados empenhados e um apoio esmagador entre os superdelegados.

Cruz bloqueia caminho de Trump

O Wisconsin foi o primeiro grande teste após a resistência republicana a Trump se ter tornado mais organizada. O governador Scott Walker apoiou Cruz, apresentadores de programas de rádio conservadores atacaram o historial de Trump e grupos externos investiram fortemente para impedir a vitória do empresário nova-iorquino. O resultado mostrou que Cruz poderia construir uma coligação mais ampla do que a base evangélica que impulsionou algumas das suas vitórias anteriores.

Uma análise das sondagens à boca das urnas da CBS News revelou que Cruz derrotou Trump entre os eleitores com diploma universitário e, de forma invulgar, também entre aqueles sem diploma. Teve também um bom desempenho entre os eleitores que se descreveram como muito conservadores, algo conservadores e moderados, além de conquistar os eleitores preocupados com o temperamento do candidato.

A candidatura de Trump enfrentou uma semana difícil. Voltou atrás depois de afirmar que as mulheres deveriam sofrer "algum tipo de punição" caso o aborto fosse proibido, defendeu o seu chefe de campanha após uma acusação de agressão e entrou em conflito com Walker e com os apresentadores de rádio do Wisconsin. A campanha de Cruz utilizou estes episódios para argumentar que Trump não possuía o discernimento e a disciplina necessários para a nomeação.

O Wisconsin atribui a maioria dos seus delegados republicanos ao vencedor em cada distrito congressional, sendo que o vencedor em todo o estado recebe delegados adicionais. Cruz venceu na maioria dos distritos e conquistou 36 delegados, enquanto Trump obteve seis. A avaliação da votação feita pela revista Time descreveu o resultado como o primeiro sinal claro de uma coligação que vai além da sua base ideológica tradicional.

A vitória não coloca Cruz em vantagem. Trump mantém uma grande liderança em número de delegados, e o calendário segue agora para Nova Iorque, onde tem fortes laços locais e uma sólida vantagem nas sondagens. Mas negar a Trump os delegados do Wisconsin aumenta a probabilidade de nenhum candidato alcançar a maioria antes da convenção republicana em Cleveland. A estratégia de Cruz depende cada vez mais de uma convenção disputada, onde os delegados podem ter a liberdade de mudar os seus votos após a primeira volta.

Durante um discurso de vitória transcrito pela CNN na noite das eleições, Cruz considerou o Wisconsin um ponto de viragem e argumentou que os republicanos estavam a unir-se em torno da sua campanha. A campanha de Trump respondeu rotulando Cruz como um instrumento do establishment do partido e alegando coordenação imprópria com os aliados, sem apresentar provas.

Sanders gera impulso, não vantagem em número de delegados

A vitória de Sanders foi larga. Conquistou os eleitores mais jovens por uma margem esmagadora, dominou entre os independentes e teve um bom desempenho em grande parte do estado. As regras das primárias abertas do Wisconsin permitiram a participação de eleitores que não pertencem formalmente a um partido, beneficiando um candidato cujo apelo se estendeu sempre para além dos democratas registados.

Uma análise da ABC News à sondagem à boca das urnas do Partido Democrata revelou que Sanders obteve força entre os eleitores que deram prioridade à honestidade, à inspiração e a um candidato que partilha os seus valores. Clinton manteve-se mais forte entre os eleitores que enfatizaram a experiência e a capacidade de vencer as eleições.

Sanders também beneficiou da cultura política do Wisconsin: uma tradição progressista, um grande eleitorado branco, uma forte presença universitária e um historial de participação aberta. O relatório da Rádio Pública de Wisconsin na noite das eleições observou que ambos os candidatos fizeram campanha intensamente no estado durante os 10 dias anteriores, mesmo depois de as sondagens de opinião pública terem começado a mostrar Sanders com uma pequena vantagem.

A distribuição dos delegados, no entanto, é proporcional. Sanders ganhou mais delegados do que Clinton, mas não conseguiu inverter grande parte da vantagem acumulada por ela. A sua campanha precisa de vencer nos próximos estados por uma larga margem para a conseguir em número de delegados empenhados, além de persuadir os superdelegados — líderes partidários e autoridades eleitas que não estão vinculados aos resultados das primárias — a reconsiderarem o seu apoio.

A coligação de Clinton tem sido mais forte entre os eleitores negros, os democratas mais velhos e os membros regulares do partido, vantagens que provavelmente farão a diferença em Nova Iorque e nas eleições seguintes. Sanders venceu uma série de assembleias e primárias em estados predominantemente brancos, angariando fundos de pequenos doadores e mantendo o entusiasmo. Wisconsin valida esta estratégia sem alterar a sua complexa matemática.

Duas vitórias com significados diferentes

Para os republicanos, o Wisconsin altera a dinâmica da corrida eleitoral. Cada delegado negado a Trump aumenta a possibilidade de a nomeação ser decidida através de múltiplas votações e regras de convenção, em vez de uma clara maioria nas primárias. Kasich, que ficou em terceiro lugar, continua muito atrás em número de delegados, mas continua a defender que seria o candidato mais forte para a eleição geral.

Para os democratas, o resultado prolonga uma disputa cujo desfecho provável permanece menos incerto. Sanders pode apontar para uma vitória popular decisiva e uma fonte duradoura de financiamento de campanha, mas Clinton tem ainda uma maior vantagem em termos de número de delegados empenhados e uma vantagem considerável quando os superdelegados são incluídos. A análise eleitoral da revista Time concluiu que Sanders ganhou impulso, enquanto o caminho de Clinton para a nomeação se manteve mais sólido.

O ponto em comum é a resistência do eleitorado ao inevitável. Os republicanos do Wisconsin rejeitaram o líder nacional após semanas de controvérsia, enquanto os eleitores democratas deram ao candidato insurgente mais uma vitória esmagadora. Os resultados mostram que o eleitorado de nenhum dos partidos está preparado para terminar a disputa simplesmente porque um dos favoritos acumulou uma vantagem.

Nova Iorque torna-se o próximo teste

As campanhas viram-se agora para as primárias de Nova Iorque, a 19 de abril, onde o cenário muda drasticamente. Trump nasceu em Queens, construiu a sua imagem empresarial e pública em Manhattan e lidera com larga vantagem sobre Cruz e Kasich. As regras republicanas de Nova Iorque também distribuem os delegados por distrito congressional, criando oportunidades para os rivais caso consigam manter Trump abaixo dos limites mínimos exigidos.

Clinton representou Nova Iorque no Senado durante oito anos e conta com o apoio de grande parte da elite democrata do estado. Sanders nasceu em Brooklyn, mas representa Vermont há décadas. Terá de traduzir a sua biografia e entusiasmo em apoio do eleitorado racial e economicamente diverso, que frequentemente favorece Clinton.

Um relato internacional das eleições, publicado na quarta-feira, descreveu o Wisconsin como um golpe para ambos os favoritos, mas a dimensão deste golpe difere. Trump perdeu delegados necessários para evitar uma convenção contestada. Clinton perdeu um estado, mas manteve a estrutura da sua vantagem em delegados.

Assim, o Wisconsin deixa a corrida presidencial num estado paradoxal: ambos os candidatos podem reivindicar, com alguma credibilidade, o impulso necessário para vencer, enquanto ambos os favoritos mantêm a liderança. As próximas votações determinarão se a terça-feira representou uma viragem duradoura na campanha ou uma interrupção brusca antes de os líderes retomarem o controlo.