A Microsoft vai eliminar até 1.850 postos de trabalho na sua divisão de hardware para smartphones e registar uma baixa contabilística de aproximadamente 950 milhões de dólares, mais um recuo drástico face à operação de telemóveis da Nokia, adquirida por 7,3 mil milhões de dólares há apenas dois anos. Os cortes ocorrem numa altura em que os telemóveis com Windows representam menos de 1% das vendas globais de smartphones.
Cerca de 1.350 postos de trabalho serão eliminados na Finlândia, país onde a Nokia construiu uma empresa líder nacional em tecnologia, e aproximadamente outros 500 serão cortados noutros locais. A maior parte da reestruturação deverá estar concluída até ao final de 2016 e a totalidade até julho de 2017. A Reuters noticiou que o valor inclui cerca de 200 milhões de dólares em indemnizações por rescisão de contrato.
Uma aquisição de 7,3 mil milhões de dólares foi praticamente desmantelada
Em 2014, a Microsoft adquiriu a divisão de dispositivos e serviços da Nokia para garantir uma plataforma de hardware para o Windows Phone e competir com o iPhone da Apple e os vários fabricantes que utilizavam o Android da Google. O negócio trouxe cerca de 25.000 funcionários e tornou a Microsoft responsável pelo design, fabrico e distribuição dos dispositivos Lumia.
A estratégia desmoronou-se rapidamente. No ano passado, a Microsoft contabilizou uma baixa contabilística de aproximadamente 7,6 mil milhões de dólares relacionada com a aquisição — mais do que o preço de compra original após ajustes — e anunciou o corte de 7.800 postos de trabalho, a maioria ligados à produção de telemóveis. Este mês, a empresa concordou em vender os ativos de telemóveis básicos da Nokia à FIH Mobile, uma subsidiária da Foxconn, e à HMD Global por 350 milhões de dólares. A reportagem da ABC News sobre a ação de quarta-feira observou que os cortes mais recentes seguem esta venda e reduzem drasticamente o tamanho da linha de smartphones Lumia.
A escala cumulativa torna o novo anúncio mais do que uma reestruturação comum. A Microsoft está a eliminar a infraestrutura de produção e geográfica herdada da Nokia, preservando apenas algumas atividades de engenharia. Uma notícia da Associated Press descreveu a ação como uma tentativa de salvar uma entrada atribulada no mercado de hardware para smartphones, após cerca de 26.000 cortes de empregos anteriores relacionados com o negócio.
A quota de mercado cai a pique para 0,7%
A adoção pelo consumidor oferece a explicação mais clara. A empresa de investigação Gartner estimou que os fabricantes venderam cerca de 2,4 milhões de smartphones com Windows em todo o mundo durante o primeiro trimestre, dando ao sistema operativo uma quota de 0,7%. Isto compara com 2,5% no ano anterior. A análise dos dados da Gartner feita pelo The Verge calculou que as vendas de telefones com Windows caíram mais de 70%, enquanto o mercado geral de smartphones cresceu.
O Android captou aproximadamente 84% das vendas do primeiro trimestre e o iOS da Apple cerca de 15%, deixando pouco espaço para um terceiro ecossistema. Esse desequilíbrio agrava-se. Os programadores concentram-se nas duas plataformas com grandes audiências; os consumidores evitam, então, uma plataforma mais pequena porque as aplicações importantes chegam com atraso ou nem sequer chegam a ser lançadas. Os substanciais pagamentos e a assistência técnica da Microsoft aos programadores não quebraram este ciclo.
A aquisição da Nokia também ocorreu precisamente quando os fabricantes de Android de baixo custo se expandiram e o crescimento do mercado de smartphones começou a deslocar-se para os mercados emergentes, onde o preço e a variedade de aplicações importavam mais do que as relações empresariais da Microsoft. Os dispositivos Lumia receberam elogios pelas suas câmaras e design diferenciado, mas a linha não conseguiu atingir o volume necessário para sustentar uma operação global de hardware.
Nadella restringe o significado de um telefone da Microsoft
O CEO Satya Nadella afirmou que a Microsoft continuará a desenvolver dispositivos nos quais se possa diferenciar, destacando a segurança, a capacidade de gestão e a funcionalidade Continuum, que permite que um telefone controle um monitor e um teclado como um computador pessoal. Esta afirmação sugere um futuro focado em utilizadores empresariais especializados e em experimentação, em vez de uma linha completa de Lumias para o mercado de massas.
A empresa afirma que continuará a suportar os telemóveis Lumia existentes e a desenvolver o Windows 10 Mobile. No entanto, os funcionários e analistas interpretam os cortes como um prenúncio de encerramento da produção. Um representante sindical finlandês disse à Reuters que esperava que o Windows 10 continuasse a ser oferecido, enquanto a produção de telemóveis da Microsoft seria descontinuada. A Microsoft não confirmou esta conclusão.
O GeekWire caracterizou a decisão como uma retirada efetiva do mercado de smartphones em larga escala, referindo que a Microsoft ainda deixa espaço para futuros dispositivos. Esta distinção é importante porque a empresa criou com sucesso uma categoria de hardware premium com os seus computadores Surface. Um "Surface Phone" com recursos limitados poderia demonstrar as capacidades do Windows sem reconstruir a estrutura de mercado de massas da Nokia.
O software substitui o hardware como estratégia para dispositivos móveis
Mesmo com o declínio do seu próprio sistema operativo móvel, a Microsoft está a alcançar os utilizadores de smartphones através de software em plataformas concorrentes. Office, Outlook, OneDrive, Skype e outros serviços estão disponíveis para Android e iOS. A ênfase de Nadella na computação em nuvem torna a identidade do dispositivo subjacente menos importante se os clientes utilizarem aplicações da Microsoft e armazenarem dados nos seus serviços.
Esta abordagem inverte a lógica por detrás da aquisição da Nokia. O então CEO, Steve Ballmer, defendia que o controlo sobre o hardware e o software era necessário à medida que a computação migrava dos computadores pessoais para os dispositivos móveis. Nadella, por sua vez, tornou os produtos da Microsoft amplamente disponíveis, procurando receitas e engagement onde quer que os utilizadores estejam.
A mudança tem como base a disciplina financeira. O MarketWatch informou que a baixa contabilística e a despesa de reestruturação de 950 milhões de dólares serão registadas este trimestre no segmento de Computação Mais Pessoal. As ações da Microsoft sofreram pouca variação após o anúncio, sugerindo que os investidores já tinham desconsiderado o negócio da telefonia.
Finlândia sofre mais um golpe industrial
As consequências são mais graves na Finlândia. A divisão de telemóveis da Nokia foi em tempos um símbolo da economia inovadora do país e empregava milhares de pessoas nas áreas da engenharia, design e produção. Os 1.350 cortes de pessoal planeados pela Microsoft no país afectarão principalmente a região de Tampere e Helsínquia, somando-se aos despedimentos da reestruturação anterior.
uma notícia do The Guardian , a mais recente medida imprime a marca de Nadella na empresa e desfaz ainda mais a aquisição emblemática do seu antecessor. As autoridades finlandesas e os representantes dos trabalhadores enfrentam agora a tarefa de redirecionar engenheiros de software experientes para empresas tecnológicas mais pequenas, empresas de jogos e fornecedores de comunicações.
A decisão não encerra o papel da Microsoft na computação móvel. O seu software está presente em centenas de milhões de telemóveis, e o Windows continua a ser dominante nos computadores pessoais. Mas ela acaba com a ambição, pelo menos na sua forma do tempo da Nokia, de competir com a Apple e a Samsung através de uma operação completa de fabrico de telemóveis. Dois anos depois de ter adquirido os ativos necessários para se tornar um grande fabricante de telemóveis, a Microsoft está a pagar quase mais mil milhões de dólares para se tornar uma empresa muito mais pequena.