Porto Rico registou 10.690 infeções por Zika confirmadas em laboratório, o que levou o governo federal a declarar, na sexta-feira, o estado de emergência em saúde pública, visando sobretudo proteger as grávidas e as crianças de um surto que se está a espalhar por quase toda a ilha.
A Secretária de Saúde e Serviços Humanos, Sylvia Mathews Burwell, determinou que a epidemia constitui uma emergência de importância nacional, nos termos da Secção 319 da Lei dos Serviços de Saúde Pública. A declaração formal concede a Porto Rico maior flexibilidade para direcionar fundos federais para o controlo de mosquitos, vigilância e serviços médicos para mulheres em risco de infeção e bebés que possam apresentar graves defeitos congénitos.
A medida surge após evidências de que a transmissão está a acelerar. O departamento de saúde de Porto Rico afirmou que as infeções confirmadas quase duplicaram, passando de 5.582 casos identificados até ao início de julho. Como a maioria das infeções por Zika não causa sintomas, as autoridades acreditam que os totais laboratoriais representam apenas uma fração do vírus que circula num território de 3,5 milhões de pessoas.
Um surto que atingiu quase todos os concelhos
Um relatório detalhado dos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC), publicado na semana passada, constatou infeções confirmadas ou presumíveis entre os residentes de 77 dos 78 municípios de Porto Rico. Das 23.487 pessoas avaliadas entre novembro e 7 de julho, os investigadores identificaram 5.582 infeções, incluindo 672 mulheres grávidas.
A taxa de testes positivos aumentou rapidamente com a intensificação da época dos mosquitos. Entre os homens e mulheres não grávidas com sintomas, a percentagem de testes positivos subiu de 14% em fevereiro para 64% em junho. Entre as grávidas com sintomas, a taxa subiu de 8% para 41%. Estas tendências, segundo o CDC, justificam o aumento do controlo de mosquitos e da proteção individual.
O crescente número de grávidas infetadas é a principal razão para a emergência. A infeção pelo Zika durante a gravidez pode causar microcefalia e outras anomalias cerebrais graves no feto. O vírus tem também sido associado à síndrome de Guillain-Barré, uma doença neurológica que pode causar paralisia. Porto Rico está a monitorizar as mulheres infectadas e os seus filhos através de um sistema específico de vigilância da gravidez.
Autoridade de emergência e recursos limitados
A declaração do HHS não prevê uma nova dotação orçamental significativa. Em vez disso, permite às autoridades flexibilizar os recursos existentes, incluindo autorizando Porto Rico a solicitar a deslocalização temporária de pessoal financiado por programas federais de saúde pública. Pode também apoiar a expansão dos serviços para grávidas e crianças através de centros de saúde locais.
A declaração consta do registo oficial de emergências de saúde pública, colocando o surto ao lado de desastres e eventos de doença que exigem uma coordenação federal extraordinária. Burwell afirmou que o vírus representa uma ameaça significativa para a saúde pública do estado, especialmente para as mulheres grávidas e crianças nascidas de mães infetadas.
Esta flexibilidade é importante porque Porto Rico enfrenta uma profunda crise fiscal, com as agências de saúde a combater a epidemia enquanto o governo luta contra uma dívida de aproximadamente 70 mil milhões de dólares. O Congresso entrou em recesso de verão em Washington sem resolver as propostas de financiamento concorrentes para o combate ao Zika. As agências federais de saúde alertaram que os recursos redirecionados de outros programas estão a esgotar-se.
A Reuters noticiou na sexta-feira que a declaração ocorreu quando o número de casos confirmados na ilha atingiu os 10.690. O número realça a rapidez com que o surto se alastrou, ultrapassando o anterior período de vigilância analisado pelo CDC.
Prevenção da gravidez e controlo de mosquitos
Não existe vacina nem tratamento específico para o Zika. Os esforços de saúde pública dependem, portanto, da prevenção da picada de mosquitos, da redução da população de mosquitos, da testagem das grávidas e da limitação da transmissão sexual. O mosquito Aedes aegypti prolifera em ambientes urbanos quentes e reproduz-se em pequenos focos de água parada, o que torna o controlo em toda a ilha extremamente difícil.
O diretor do CDC, Dr. Thomas Frieden, classificou o surto em Porto Rico como um desafio e uma crise. Em Março, alertou que os casos estavam a duplicar semanalmente e que centenas de milhares de residentes — incluindo milhares de mulheres grávidas — poderiam ser infectados. As autoridades estão a recomendar que os residentes usem repelente de insetos, vistam roupas de proteção, instalem redes de proteção e eliminem a água estagnada.
A resposta inclui ainda a distribuição de kits de prevenção do Zika às mulheres grávidas, o acesso alargado a métodos contracetivos às mulheres que desejam adiar a gravidez e a realização de testes durante o primeiro e segundo trimestres, mesmo quando a mulher não apresenta sintomas. Esta última medida é essencial, uma vez que a infeção assintomática pode ainda representar uma ameaça para o feto.
A segurança do sangue é outra preocupação. Porto Rico suspendeu a recolha local de sangue no início deste ano e começou a importar os mantimentos triados enquanto as autoridades federais avaliavam os testes. Em junho, o CDC detetou uma taxa crescente de doações infetadas, embora o rastreio significasse que o fornecimento de sangue representava pouco risco conhecido para transfusões, de acordo com os relatórios da época sobre o programa.
Uma resposta federal cada vez mais abrangente
A declaração de emergência é um elemento de uma resposta mais ampla que inclui o apoio laboratorial do CDC, a vigilância de mosquitos, a orientação clínica e a investigação de vacinas e diagnósticos. Em Abril, quando Porto Rico tinha reportado 683 infecções confirmadas, o território registou também uma rara morte associada ao Zika envolvendo trombocitopenia grave, como descrito no relatório sobre as conclusões do CDC.
Estes números iniciais já foram amplamente superados. A principal incerteza não é se a transmissão vai continuar, mas sim quantas infeções podem ser prevenidas antes que mais gravidezes sejam afetadas. O controlo de mosquitos tem-se revelado difícil, a proposta de pulverização aérea encontrou resistência pública e a situação financeira da ilha limita a capacidade local.
A autoridade federal de emergência pode flexibilizar as restrições administrativas, mas não pode, por si só, eliminar os locais de reprodução de mosquitos, restaurar orçamentos esgotados ou fornecer os milhares de milhões de financiamento nacional para o Zika que ainda estão retidos no Congresso. A declaração, no entanto, sinaliza que o surto em Porto Rico já não está a ser tratado como um problema localizado de mosquitos. Trata-se de uma emergência nacional de saúde pública centrada nas consequências que podem não ser totalmente visíveis até que as gravidezes infetadas cheguem ao parto.