A Virgin Galactic concluiu no domingo o seu primeiro voo espacial totalmente tripulado, levando o fundador Richard Branson e outras cinco pessoas a bordo da VSS Unity a mais de 80 quilómetros de altitude, antes de regressar a planar no Spaceport America, no Novo México. A empresa afirmou que a missão Unity 22 foi o 22º voo de teste da VSS Unity, a sua quarta viagem espacial impulsionada por um foguetão e a primeira com uma cabine completa de especialistas em missões.
O voo representa um marco tecnológico e comercial, e não o início do serviço regular de passageiros. A Virgin Galactic ainda está a testar o sistema, mas a Unity 22 foi explicitamente concebida para avaliar a experiência que a empresa pretende vender: o layout da cabine, as vistas da Terra, as condições de pesquisa, os procedimentos de treino e a sequência de eventos que os passageiros experienciariam durante um curto voo suborbital. No seu anúncio de 1 de julho, a empresa descreveu a missão como um teste de experiência do cliente tanto quanto um teste do veículo.
Um caminho diferente para os voos espaciais tripulados comerciais
A VSS Unity não é lançada verticalmente a partir de uma plataforma. É transportada até uma altitude sob a aeronave de fuselagem dupla VMS Eve, libertada e depois impulsionada pelo seu motor de foguete numa subida íngreme. Após alguns minutos em microgravidade e uma visão da curvatura da Terra, a sonda reconfigura as suas superfícies de cauda para a reentrada atmosférica e, finalmente, aterra numa pista. Esta arquitetura visa tornar o veículo reutilizável e permitir voos frequentes a partir de uma base operacional de aspeto convencional.
A Virgin Galactic já tinha demonstrado o sistema básico antes da missão de domingo. No dia 22 de maio, a VSS Unity atingiu uma altitude de 89,25 quilómetros (55,45 milhas) no primeiro voo espacial tripulado lançado a partir do Spaceport America, validando as operações na base da empresa no Novo México. Este voo também transportou cargas úteis de investigação, reforçando o argumento da empresa de que o veículo pode servir tanto o turismo espacial como a ciência suborbital.
A missão de domingo levou o sistema um passo mais longe, enchendo a cabine. Juntamente com Branson, os especialistas em missões Beth Moses, Colin Bennett e Sirisha Bandla avaliaram diferentes aspetos da experiência dos passageiros e da investigação, enquanto os pilotos David Mackay e Michael Masucci pilotavam a aeronave. A ênfase nos fatores humanos é importante porque um serviço comercial deve ser replicável não só na propulsão e no controlo de voo, mas também no treino, no embarque, nos procedimentos de cabine e na resposta a emergências.
A regulamentação faz parte do conjunto de tecnologias
A Administração Federal de Aviação (FAA) regula as operações comerciais de lançamento e reentrada principalmente para proteger o público não envolvido e o sistema nacional de espaço aéreo. A agência classificou o voo da Virgin Galactic em maio como o seu 400º lançamento espacial comercial licenciado, sublinhando a rapidez com que a atividade de lançamentos privados cresceu, indo além das missões experimentais ocasionais.
Os voos espaciais tripulados comerciais também operam sob uma estrutura regulamentar diferente da aviação comercial. A FAA licencia a operação, mas os passageiros voam sob um modelo de consentimento informado, em vez de um regime de certificação semelhante ao da aviação comercial. Esta distinção impõe uma maior responsabilidade aos operadores para demonstrarem fiabilidade através de testes e divulgarem os riscos de forma clara aos participantes.
O cenário mais amplo de licenciamento também está a mudar. Uma norma da FAA de março consolidou e simplificou partes do processo de licenciamento de lançamento e reentrada comercial, refletindo a expectativa de que a frequência de lançamentos continuará a aumentar. A norma visa dar às empresas mais flexibilidade, mantendo os padrões de segurança pública à medida que os novos projetos de veículos passam dos programas de testes para o serviço comercial.
O Spaceport America recebe a missão para a qual foi construído
A Unity 22 serviu também como validação da infraestrutura que rodeia a nave espacial. O Spaceport America, uma instalação financiada com recursos públicos no sul do Novo México, foi especificamente concebido para apoiar operações espaciais comerciais. Na sua declaração de missão divulgada no domingo, o porto espacial descreveu o voo de Branson como o culminar de anos de desenvolvimento com o objetivo de criar uma economia aeroespacial comercial recorrente na região.
Esta promessa económica sempre dependeu da frequência dos voos. Uma única missão de grande impacto pode atrair a atenção global, mas o modelo de negócio exige um fluxo constante de clientes, missões de investigação e serviços associados. A Virgin Galactic possui centenas de reservas de esforços de vendas anteriores e afirmou que pretende iniciar operações regulares com astronautas privados após a conclusão de testes adicionais e trabalhos na aeronave.
A capacidade do veículo de planar de volta para a pista oferece vantagens operacionais, mas a reutilização frequente exigirá ciclos de manutenção suficientemente curtos para suportar um horário comercial. Portanto, o programa de testes precisa de demonstrar mais do que apenas que a nave espacial consegue atingir a altitude desejada. Deve mostrar que todo o sistema pode ser preparado repetidamente, que a formação pode ser padronizada e que a experiência do passageiro pode ser oferecida de forma consistente.
Um novo mercado está a formar-se antes mesmo de a sua viabilidade económica estar comprovada
O voo da Virgin Galactic ocorre numa altura em que várias empresas procuram diferentes versões de voos espaciais tripulados privados. A Blue Origin está a preparar a sua cápsula New Shepard para o primeiro lançamento tripulado a partir do Texas, enquanto a SpaceX desenvolve missões orbitais que mantêm as tripulações privadas no espaço durante dias, em vez de minutos. As abordagens variam drasticamente em preço, duração, design do veículo e risco, mas todas visam expandir os voos espaciais tripulados para além do corpo de astronautas governamentais.
Isto não significa ainda que o turismo espacial seja um mercado maduro. Os preços dos bilhetes continuam fora do alcance da maioria dos consumidores, as taxas de voo são baixas e as naves ainda estão a sair dos programas de teste. A tecnologia está a avançar mais rapidamente do que as provas sobre a procura a longo prazo, as margens operacionais ou o custo de manutenção associado aos voos espaciais tripulados frequentes.
Ainda assim, a Unity 22 muda a questão que se coloca à indústria. Durante anos, o turismo suborbital comercial foi definido em grande parte por promessas e protótipos. Esta semana, a Virgin Galactic realizou um voo com uma cabine completa utilizando o mesmo sistema básico que espera utilizar para os seus clientes. Os materiais da missão deixam claro que o voo foi concebido como um ensaio para um produto, e não meramente uma demonstração de altitude.
O desafio seguinte é a repetição. Se a Virgin Galactic conseguir transformar voos de teste bem-sucedidos numa rotina operacional segura e regular, a missão de domingo poderá ser recordada como um dos momentos em que o voo espacial tripulado privado passou de programa de desenvolvimento para serviço comercial. Caso contrário, o voo manter-se-á como uma impressionante conquista da engenharia, sem que se comprove ainda a viabilidade económica do mercado que se propõe criar.