O Congresso evitou uma paralisação do governo federal na quinta-feira por poucas horas, aprovando uma medida de gastos de curto prazo que mantém as agências em funcionamento até 3 de dezembro e fornece fundos de emergência para a recuperação de desastres e a reinstalação de afegãos. O presidente Joe Biden sancionou a legislação na noite de quinta-feira, antes de o financiamento do governo expirar à meia-noite.
O Senado aprovou a versão emendada do projeto de lei HR 5305 por uma votação bipartidária de 65 a 35.A Câmara dos Representantes concordou, então, com a versão do Senado por 254 a 175, com todos os democratas votantes e 34 republicanos a apoiar a medida. As votações eliminaram a ameaça de paralisação imediata do governo, que tinha obrigado as agências federais a preparar planos de contingência durante uma semana já repleta de disputas sobre infraestruturas, despesas sociais e o teto da dívida.
Na sua declaração de assinatura, que a lei demonstrava que o trabalho bipartidário era possível e dava ao Congresso mais tempo para completar as dotações orçamentais para o ano inteiro. Mas o alívio é temporário: os legisladores devem regressar à mesma questão do financiamento antes de 3 de Dezembro.
A versão final do projeto de lei separou o financiamento governamental do teto da dívida
A medida que se tornou lei difere da versão aprovada pela Câmara nove dias antes. Inicialmente, os democratas incluíram na resolução provisória uma suspensão do limite da dívida até dezembro de 2022, mas os senadores republicanos bloquearam o pacote combinado na segunda-feira. Os líderes do Congresso removeram, então, a cláusula de empréstimo e negociaram um projeto de lei de financiamento que poderia atrair votos suficientes dos republicanos para ultrapassar o limite processual de 60 votos do Senado.
A versão final da Lei Pública 117-43 mantém a maioria dos programas federais nos níveis de financiamento atuais até 3 de dezembro. Prorroga também várias autorizações que estavam a expirar e prevê dotações de emergência relacionadas com desastres naturais recentes e com a evacuação e reinstalação de afegãos após a retirada militar dos EUA.
O vice-presidente da Comissão de Orçamento do Senado, Richard Shelby, um republicano do Alabama, classificou o resultado como um acordo bipartidário de financiamento direto. Numa declaração após a aprovação, afirmou que a medida manteria o governo em funcionamento, ao mesmo tempo que daria aos legisladores mais tempo para negociar as dotações orçamentais para o ano fiscal de 2022.
Os democratas aceitaram a separação do teto da dívida do projeto de lei de financiamento porque o prazo para a paralisação do governo era inalterável. O ano fiscal federal terminou na quinta-feira e, sem a promulgação desta medida, as agências não teriam autorização para retomar muitas operações de rotina a partir de sexta-feira.
A assistência em casos de catástrofe e no Afeganistão ajudou a construir apoio bipartidário
Além do financiamento ordinário das agências, a lei prevê dezenas de milhares de milhões de dólares em ajuda de emergência para catástrofes após o furacão Ida, incêndios florestais e outros acontecimentos recentes. Inclui também milhares de milhões para apoiar os evacuados afegãos que chegam aos Estados Unidos após o fim da guerra de 20 anos.
Estas adições conferiram à medida um conteúdo político que ia para além da simples continuidade dos gastos correntes. Tornaram também mais difícil para os legisladores, cujos estados e agências dependem de recursos de emergência, justificar uma paralisação do governo em relação ao projeto de lei.
Uma notícia da CBS News, publicada antes da votação, afirmava que a medida revista previa aproximadamente 28,6 mil milhões de dólares em assistência em caso de catástrofe e cerca de 6,3 mil milhões de dólares relacionados com o realojamento de afegãos. Os líderes do Senado concordaram também em permitir votações sobre emendas propostas pelos republicanos, abrindo caminho para a aprovação final sem permitir que estas disputas comprometessem o projeto de lei de financiamento.
O Washington Post noticiou que as agências federais passaram os últimos dias a preparar-se para uma possível paralisação do governo, incluindo planos para proteger funções essenciais de saúde e segurança pública. Estes preparativos tornaram-se desnecessários assim que Biden sancionou a medida.
O limite da dívida continua a ser o prazo não resolvido mais perigoso
Evitar uma paralisação do governo não resolve o segundo conflito fiscal. A secretária do Tesouro, Janet Yellen, disse ao Congresso esta semana que o departamento espera esgotar as medidas extraordinárias por volta de 18 de outubro, caso os legisladores não aumentem ou suspendam o limite da dívida. Nesta altura, o governo poderá não conseguir cumprir todas as obrigações já autorizadas por lei.
A distinção é importante. Uma paralisação do governo interrompe os programas porque as verbas expiram. Uma violação do limite da dívida ameaçaria a capacidade do governo de financiar os compromissos existentes, incluindo pagamentos a beneficiários, contratantes, detentores de obrigações e funcionários federais. Esta última situação nunca se verificou e poderá gerar consequências muito mais vastas para o mercado financeiro.
A declaração de política original do governo sobre o projeto de lei HR 5305 argumentava que a suspensão do limite da dívida era uma responsabilidade bipartidária, dado que a autorização para empréstimos financia obrigações acumuladas sob governos de ambos os partidos. Os republicanos sustentam que os democratas, que controlam o Congresso e procuram um amplo pacote de políticas internas, devem elevar o tecto da dívida sem necessidade de votos republicanos.
Este impasse persiste mesmo com a diminuição da ameaça de paralisação do governo. A Câmara aprovou legislação separada sobre o limite da dívida, mas os republicanos do Senado sinalizaram que não fornecerão os votos necessários para a aprovar pelos procedimentos normais.
O próximo prazo para a aprovação do orçamento é agora o dia 3 de dezembro
A resolução provisória visa ganhar tempo, não resolver o orçamento. O Congresso ainda tem de concluir os 12 projetos de lei de dotações orçamentais anuais que financiam os departamentos e agências federais para o ano fiscal que começou na sexta-feira. Os negociadores terão agora cerca de nove semanas para chegar a um acordo mais amplo ou aprovar outra prorrogação temporária.
Este calendário comprimido coincide com a agenda de infraestruturas e política social do governo, tornando o tempo de debate no plenário do Congresso excecionalmente escasso. Os líderes democratas também estão a lidar com divergências dentro do próprio partido sobre a dimensão e a sequência destes projetos de lei.
Apesar disso, a conquista imediata é significativa para os funcionários federais e para o público: os escritórios permanecem abertos, a administração de benefícios continua e as agências não têm de implementar planos de licença não remunerada. Uma notícia da Associated Press da época descreveu as votações finais como uma resolução de última hora para uma crise, enquanto a disputa separada sobre o empréstimo permanecia por resolver.
O Congresso trocou, assim, uma paralisação que durou horas por dois períodos que duram semanas. O governo está financiado até 3 de dezembro. O limite da dívida pode exigir uma ação muito antes disso. A votação bipartidária de quinta-feira prova que os legisladores podem agir rapidamente quando o tempo está quase a esgotar-se; as próximas semanas mostrarão se conseguirão fazer o mesmo antes que a próxima crise chegue a esse ponto.