O Presidente Biden sancionou na quinta-feira uma lei que aumenta o limite da dívida federal em 480 mil milhões de dólares, pondo fim à ameaça imediata de que o Departamento do Tesouro possa ficar sem autorização para contrair empréstimos na próxima semana, mas criando uma nova situação de confronto em menos de dois meses.
A medida tornou-se a Lei Pública 117-50 depois de a Câmara ter aceite uma emenda do Senado na terça-feira. O aumento eleva o teto legal para aproximadamente 28,9 triliões de dólares e tem como objetivo permitir que o Tesouro cumpra as obrigações federais existentes até cerca de 3 de dezembro. Não autoriza novos gastos; permite ao governo financiar compromissos já aprovados pelo Congresso.
Uma ameaça de incumprimento a curto prazo foi removida
A secretária do Tesouro, Janet Yellen, tinha avisado os líderes do Congresso de que as medidas extraordinárias utilizadas para se manter dentro do limite de endividamento provavelmente esgotar-se-iam por volta de 18 de Outubro. Numa carta de 28 de Setembro, Yellen afirmou que o Tesouro ficaria então com recursos limitados que poderiam esgotar-se rapidamente, criando a possibilidade de o governo não conseguir honrar todas as suas obrigações em dia.
Os alertas intensificaram-se à medida que o prazo se aproximava. Num discurso aos líderes empresariais na Casa Branca, a 6 de outubro, Yellen afirmou que mesmo um atraso que não chegasse a configurar um incumprimento poderia aumentar os custos dos empréstimos, destabilizar os mercados e prejudicar a confiança das empresas e dos consumidores. Ela enfatizou que o limite da dívida abrange obrigações como benefícios da Segurança Social e do Medicare, salários militares, juros de títulos do Tesouro e reembolsos de impostos.
A legislação ganha tempo em vez de resolver o litígio. O Tesouro enfrentará novamente restrições assim que os 480 mil milhões de dólares adicionais em capacidade de empréstimo forem consumidos. O departamento afirmou que o aumento deverá ser suficiente para o governo até ao início de dezembro, altura em que o Congresso terá também um prazo separado para financiar as agências federais.
O acordo do Senado foi tanto processual como substancial
O avanço ocorreu a 7 de outubro, depois de o líder da minoria no Senado, Mitch McConnell, ter oferecido um aumento temporário em vez de uma suspensão mais longa. Onze republicanos juntaram-se aos democratas para encerrar o debate, permitindo que a legislação ultrapassasse o limite de 60 votos necessários para a votação final. Na votação final da emenda, o Senado votou 50 a 48, seguindo as linhas partidárias, de acordo com os registos diários.
O grupo democrata do Senado registou a votação final de 50-48 sobre a emenda que elevava o teto dos gastos. A Câmara dos Representantes aprovou então a redação do Senado a 12 de outubro, e a assinatura de Biden concluiu o processo dois dias depois.
A estrutura invulgar refletia a disputa partidária mais ampla. Os democratas argumentavam que ambos os partidos tinham contribuído para as obrigações que agora exigiam financiamento e que o limite da dívida deveria ser abordado de forma bipartidária. Os republicanos afirmavam que os democratas, que controlam a Câmara e o Senado e estão a procurar um amplo pacote de políticas sociais e climáticas através da reconciliação, deveriam elevar o tecto por conta própria, utilizando o mesmo procedimento.
O limite de endividamento financia decisões passadas, e não novas
do Departamento do Tesouro sobre o limite da dívida enfatizam uma distinção frequentemente obscurecida no debate político: a elevação do tecto não cria novos programas nem aumenta as dotações anteriormente autorizadas. Permite ao Tesouro contrair empréstimos suficientes para pagar as contas geradas pelas leis fiscais e de despesas já em vigor.
Esta distinção não elimina as questões fiscais subjacentes. A dívida federal aumentou rapidamente após anos de défices estruturais, alterações fiscais, auxílio durante a pandemia e apoio económico de emergência. Mas a escolha imediata apresentada pelo limite da dívida é se o governo irá financiar as obrigações que o Congresso já autorizou, e não se essas obrigações deveriam ter sido promulgadas.
Desde agosto que o Tesouro tem recorrido a medidas extraordinárias envolvendo fundos federais de pensões e outras contas para preservar a sua capacidade de endividamento. O alerta de Yellen, feito a 8 de setembro, explicou que estas medidas contabilísticas são temporárias e não criam capacidade de endividamento permanente. Uma vez esgotadas, as receitas federais recebidas, por si só, serão insuficientes para cobrir todos os pagamentos programados.
Dezembro torna-se agora o próximo ponto crítico
O aumento temporário adia um possível incumprimento histórico, mas não estabelece uma solução duradoura. O Congresso precisa de rever o tecto da dívida dentro de algumas semanas, e o próximo debate irá provavelmente coincidir com as negociações sobre o financiamento governamental, o projecto de lei bipartidário sobre as infra-estruturas e o pacote de reconciliação dos Democratas.
A curta antecedência também significa que os mercados financeiros poderão em breve ter de precificar outro período de incerteza. Os títulos do Tesouro são a base do sistema financeiro global, servindo como ativos de referência e garantias nos mercados bancário, de investimento e de pagamentos. Um atraso no pagamento federal teria, portanto, consequências que vão muito para além do programa ou título específico afetado.
O incentivo político para evitar este desfecho continua forte. O Congresso alterou ou suspendeu repetidamente o limite da dívida sob presidentes de ambos os partidos. O Tesouro observa que os legisladores agiram dezenas de vezes desde 1960, incluindo durante períodos de governo dividido.
Para já, a nova lei elimina o prazo de outubro e concede aos legisladores mais tempo. Mas a discordância fundamental sobre quem deve fornecer os votos — e durante quanto tempo deve ser elevado o tecto — continua por resolver. O país evitou uma crise do limite da dívida ao agendar a próxima para dezembro.