A Amazon concordou na quinta-feira em adquirir a empresa de cuidados primários One Medical por cerca de US$ 3,9 mil milhões, incluindo dívidas, ampliando a investida da gigante da tecnologia e do retalho na área da saúde, que antes se concentrava em farmácias e telemedicina, para uma rede nacional de consultórios médicos. De acordo com o anúncio da transação, a Amazon vai pagar 18 dólares em dinheiro por cada ação da 1Life Healthcare, a empresa-mãe da One Medical, que tem ações negociadas em bolsa.
O acordo representa um dos maiores investimentos da Amazon no setor da saúde e coloca a empresa numa posição de combinar serviços online, logística para o consumidor e cuidados médicos presenciais. A One Medical opera clínicas de cuidados primários com base em planos de subscrição e serviços de cuidados virtuais para particulares e empresas. Espera-se que o CEO Amir Dan Rubin permaneça no cargo após a conclusão da transação.
A Amazon descreveu a aquisição como um esforço para tornar os cuidados médicos de rotina mais rápidos e fáceis de aceder. Em comunicado da empresa, o vice-presidente sénior da Amazon Health Services, Neil Lindsay, afirmou que o agendamento de consultas, a espera por consultas e a deslocação até às clínicas continuam a ser áreas em que a empresa vê oportunidades para melhorar a experiência do consumidor.
A One Medical proporciona à Amazon uma presença física no setor dos cuidados de saúde primários
A Amazon passou vários anos a fazer experiências com a área da saúde, mas a One Medical traria algo fundamentalmente diferente: consultórios médicos consolidados em grandes centros metropolitanos, parcerias com empregadores e receitas recorrentes através de subscrições. A One Medical combina o agendamento para o mesmo dia ou para o dia seguinte com uma aplicação móvel e acesso digital 24 horas por dia, 7 dias por semana, um modelo concebido para tornar os cuidados de saúde primários mais semelhantes a um serviço ao consumidor.
O comunicado das empresas à SEC (Comissão de Valores Mobiliários dos EUA) refere que a transação avalia a One Medical em aproximadamente 3,9 mil milhões de dólares, incluindo a dívida líquida, e continua sujeita à aprovação dos acionistas e à análise regulatória. O comunicado sublinha ainda que as empresas esperam trabalhar em conjunto para uma combinação mais integrada de atendimento presencial e virtual.
Para a Amazon, o atrativo não reside simplesmente na propriedade de clínicas. Os cuidados primários são uma porta de entrada para encaminhamentos, prescrições, diagnósticos e gestão de doenças crónicas. Uma relação de confiança entre paciente e médico pode ligar muitos serviços que a Amazon já tem vindo a desenvolver em separado.
A aquisição amplia uma estratégia desigual de assistência médica
As ambições da Amazon na área da saúde são anteriores a esta transação. Em 2018, a empresa adquiriu a farmácia online PillPack, uma medida que lhe proporcionou licenças farmacêuticas e experiência na embalagem de medicamentos para pessoas que tomam vários medicamentos. O anúncio da Amazon sobre a PillPack descreveu a aquisição como uma forma de melhorar a experiência farmacêutica através da tecnologia e do serviço ao cliente.
Posteriormente, a empresa lançou a Farmácia Amazon e desenvolveu o Amazon Care, um serviço híbrido, virtual e presencial, inicialmente criado para os seus próprios colaboradores e mais tarde oferecido a outros empregadores. O acordo com a One Medical é mais substancial porque integraria um grupo médico já estabelecido na Amazon, em vez de construir uma rede de cuidados a partir do zero.
O Washington Post noticiou que a presença da One Medical e os seus contratos com os empregadores podem dar à Amazon um papel muito maior nos cuidados de saúde primários, ao mesmo tempo que levanta questões sobre como os dados dos pacientes seriam tratados por uma empresa cujos negócios principais incluem comércio, computação em nuvem e publicidade. As informações de saúde estão sujeitas a regras de privacidade específicas, e a integração de uma clínica médica com uma grande plataforma tecnológica orientada para o consumidor irá provavelmente atrair um escrutínio rigoroso.
O preço reflete tanto o valor estratégico como uma reinvenção na saúde digital
A oferta de 18 dólares por ação representa um prémio substancial em relação ao preço recente das ações da One Medical, mas a empresa tinha caído muito abaixo dos picos atingidos durante a subida das avaliações das empresas de saúde digital na era da pandemia. O aumento das taxas de juro e a desaceleração do crescimento reduziram drasticamente o entusiasmo dos investidores por muitas empresas de cuidados de saúde focadas na tecnologia.
A CBS San Francisco referiu que a One Medical expandiu o seu modelo original de adesão direta ao consumidor e se tornou um importante prestador de cuidados primários patrocinados pelos empregadores. Isto torna a empresa atrativa para a Amazon não só como uma rede de clínicas, mas também como um serviço corporativo que pode ser vendido a empregadores.
O acordo sucede também à aquisição da Iora Health pela One Medical, que alargou a sua atividade junto dos idosos e beneficiários da Medicare. Esta combinação cria uma base clínica mais ampla, mas também aumenta a complexidade, uma vez que o reembolso dos serviços de saúde, os acordos de risco e os requisitos dos programas federais diferem substancialmente dos serviços ao consumidor comum.
A análise regulamentar testará até que ponto a Amazon pode integrar os serviços de saúde
A aquisição precisa de passar pela análise antitruste e obter a aprovação dos acionistas da One Medical. É provável que os organismos reguladores examinem os efeitos da transação na concorrência e como a escala, os recursos de dados e os negócios de saúde existentes da Amazon podem interagir com a One Medical. A transação não é uma fusão horizontal convencional entre dois grandes grupos médicos, mas o alcance da Amazon em diversos mercados de consumo torna esta análise competitiva mais ampla importante.
A vantagem da Amazon reside na sua capacidade de investir a longo prazo, integrar logística e software e facilitar a aquisição de serviços. A área da saúde é mais difícil de uniformizar. A qualidade clínica, a regulamentação local, os contratos com os seguros de saúde e a independência profissional dos médicos impõem restrições que não existem no retalho tradicional.
Esta tensão faz da One Medical um teste excecionalmente importante para a estratégia de saúde da Amazon. Se o negócio for concluído, a Amazon deixará de vender medicamentos e de operar serviços de cuidados virtuais para assumir a propriedade direta de uma organização de cuidados primários de grande dimensão. A aposta de 3,9 mil milhões de dólares baseia-se na ideia de que a tecnologia de consumo da empresa e a rede clínica da One Medical podem tornar os cuidados médicos de rotina mais convenientes sem sacrificar a confiança, a privacidade e o discernimento dos quais os cuidados primários dependem.