Um júri federal da Califórnia acusou Hunter Biden, filho do presidente Joe Biden, de nove acusações de evasão fiscal, intensificando uma longa investigação do Departamento de Justiça num segundo processo criminal, em plena campanha presidencial de 2024. A acusação, datada de 7 de dezembro, inclui três crimes fiscais e seis delitos, e alega que Biden deixou de pagar pelo menos 1,4 milhões de dólares em impostos federais autodeclarados referentes aos anos fiscais de 2016 a 2019.
As acusações são alegações, não constatações de culpa. Hunter Biden presume-se inocente até que os procuradores provem os crimes para além de qualquer dúvida razoável. O caso, no entanto, coloca o filho do presidente sob acusação federal em duas jurisdições simultaneamente, após as acusações de porte de armas apresentadas em setembro pelo mesmo procurador especial.
Os procuradores alegam um esquema de evasão fiscal de quatro anos
O procurador especial David Weiss alega que Hunter Biden tinha acesso a milhões de dólares, mas optou por gastá-los em despesas pessoais em vez de cumprir as suas obrigações fiscais. De acordo com o resumo da acusação, a conduta incluiu o não pagamento dos impostos atempadamente, a não apresentação de determinadas declarações fiscais dentro do prazo e a apresentação de declarações falsas referentes a 2018, que incluíam deduções comerciais alegadamente indevidas.
A acusação imputa dois crimes de declaração de rendimentos falsa, um crime de evasão fiscal, quatro crimes de falta de pagamento de impostos e dois crimes de omissão de declaração. O governo afirma que a conduta abrange anos em que Biden obteve rendimentos através de negócios e trabalho jurídico, enquanto também lutava contra o vício das drogas, um período que já discutiu publicamente. Os procuradores argumentam que as dificuldades pessoais não justificam as alegadas violações intencionais.
O Guardian noticiou que a acusação descreve os gastos com hotéis, veículos, vestuário, entretenimento e outras despesas pessoais durante o mesmo período em que os impostos permaneceram em aberto. A inclusão de despesas pessoais no documento visa corroborar a alegação dos procuradores de que Biden tinha recursos disponíveis, mas priorizou deliberadamente outros usos.
O caso surge na sequência do colapso de uma resolução anterior
O processo por evasão fiscal representa uma mudança significativa em relação à resolução prevista no início deste ano. Hunter Biden tinha chegado a um acordo com os procuradores federais que previa a confissão de culpa por duas contravenções fiscais e um acordo separado de desvio de conduta num caso relacionado com armas de fogo. Este acordo foi desfeito num tribunal federal no Delaware, em julho, depois de o juiz ter questionado as partes sobre o alcance da imunidade e se os acordos eram interdependentes.
O procurador-geral Merrick Garland nomeou Weiss como conselheiro especial a 11 de agosto. No seu anúncio, Garland afirmou que Weiss tinha solicitado a nomeação e que receberia a autoridade e a independência garantidas pelos regulamentos do Departamento de Justiça. Weiss já supervisionava a investigação a Hunter Biden enquanto procurador federal do estado do Delaware, cargo para o qual foi nomeado durante a administração Trump.
O gabinete do procurador especial controla agora ambos os processos. Em setembro, um júri de Delaware apresentou uma acusação separada de três crimes relacionados com armas de fogo , alegando que Biden fez declarações falsas sobre o uso de drogas ao comprar uma pistola em 2018 e que possuía a arma enquanto usava ou era viciado em substâncias controladas ilegalmente. Declarou-se inocente nesse caso.
Um processo judicial com consequências políticas inevitáveis
A acusação surge numa altura em que os republicanos da Câmara intensificam as investigações sobre a família Biden e o presidente Biden faz campanha para a reeleição. Os republicanos argumentam que os negócios de Hunter Biden levantam questões sobre se o presidente esteve indevidamente envolvido ou se beneficiou deles. A Casa Branca nega que o Presidente Biden tenha participado nas actividades comerciais do seu filho e procura diferenciar o processo criminal contra Hunter Biden da conduta oficial do Presidente.
O processo criminal em si diz respeito às obrigações fiscais de Hunter Biden, e não a uma acusação contra o Presidente Biden. Esta distinção jurídica é importante, mesmo considerando o contexto político que garante que o processo será tratado como parte de uma discussão mais ampla sobre o presidente e a sua família. A Associated Press descreveu o novo caso como um desenvolvimento extraordinário para a família de um presidente em exercício e salientou que ocorre enquanto o Departamento de Justiça também processa o ex-presidente Donald Trump em casos separados.
Esta justaposição exerce uma pressão invulgar sobre o Departamento de Justiça. Garland tem sublinhado repetidamente que os procuradores especiais operam sob as normas do departamento quando tomam decisões de acusação nos casos que lhes são atribuídos. A nomeação de Weiss teve como objetivo formalizar a sua autoridade para investigar e processar para além de Delaware, quando tal se justificasse.
As acusações serão agora encaminhadas para o tribunal federal
O novo processo foi aberto no Distrito Central da Califórnia, onde reside Hunter Biden. Se a acusação prosseguir para julgamento, o governo terá de provar o estado mental necessário para os crimes fiscais imputados, incluindo a intencionalidade. Os advogados de defesa podem contestar tanto as alegações de facto como a interpretação das provas feita pelo governo, incluindo a relevância dos pagamentos que foram posteriormente efectuados para o pagamento de dívidas fiscais.
Recentes reportagens do jornal Independent referem que a acusação alega um esquema de quatro anos, que se estendeu desde aproximadamente 2017 até outubro de 2020, e afirma que foram apresentadas declarações de IRS falsas referentes a 2018 em fevereiro de 2020. Estes detalhes serão testados em tribunal, e não resolvidos pela própria acusação.
O caso garante ainda que os problemas legais de Hunter Biden se manterão em evidência durante uma boa parte do ano eleitoral. As moções pré-julgamento, a produção de provas e o agendamento, tanto na Califórnia como no Delaware, podem ocorrer em paralelo com as investigações do Congresso e a campanha presidencial. O poder judicial federal, e não os poderes políticos, determinará se o governo conseguirá provar as acusações de evasão fiscal.
Por ora, o facto central é mais específico, porém consequente: o filho do presidente enfrenta nove novas acusações federais por evasão fiscal, incluindo três crimes graves, com base na alegação de que deixou de cumprir as suas obrigações fiscais enquanto ganhava e gastava milhões de dólares. A acusação representa a decisão mais substancial do procurador especial desde a sua nomeação em Agosto e transforma o que antes parecia estar a caminhar para uma resolução negociada num processo federal com múltiplos casos.