PHOENIX — O Supremo Tribunal do Arizona decidiu na terça-feira que o estado pode aplicar uma proibição quase total do aborto, promulgada inicialmente na era territorial. A decisão, por 4 votos a 2, pode restringir drasticamente o acesso ao aborto após o fim da suspensão temporária. A lei, originalmente adotada em 1864 e posteriormente codificada como estatuto estadual, torna a realização de um aborto um crime, exceto quando necessário para salvar a vida da mulher grávida. Não há exceções para casos de violação ou incesto. Reuters noticiou que o tribunal concluiu que uma lei mais recente sobre o aborto após as 15 semanas de gestação não revogou a proibição anterior, enquanto a Associated Press descreveu a decisão como uma das mais importantes a nível estadual desde que o Supremo Tribunal dos EUA derrubou o caso Roe v. Wade.
O tribunal do Arizona suspendeu a aplicação da lei durante 14 dias e devolveu as questões constitucionais não resolvidas a um tribunal inferior, o que significa que os serviços de aborto não serão imediatamente interrompidos. Os profissionais de saúde e as autoridades estaduais estão agora a tentar determinar como a antiga lei penal interage com as ordens judiciais existentes, a autoridade do Ministério Público e uma lei separada de 2022 que permite abortos até à 15ª semana de gestação. O Washington Post noticiou que a decisão transformou instantaneamente o cenário prático e político num estado crucial para as eleições presidenciais.
Duas leis sobre o aborto entraram em conflito após a queda do caso Roe v. Wade
O conflito jurídico no Arizona decorre da coexistência de duas leis muito diferentes. A lei mais antiga, promulgada antes de o Arizona se tornar um estado, proíbe o aborto, exceto para salvar a vida da mulher grávida. Em 2022, a legislatura aprovou um limite de 15 semanas que regula os abortos após este período, mas não revogou expressamente a lei anterior. Quando a decisão Roe v. Wade ainda restringia os estados, os tribunais tinham bloqueado a aplicação da proibição da era territorial. Após a decisão Dobbs do Supremo Tribunal dos EUA, que eliminou o direito constitucional federal ao aborto, as autoridades estaduais e os profissionais de saúde entraram em conflito sobre qual a lei do Arizona que prevalecia.
A maioria concluiu que a legislatura de 2022 tinha conhecimento da existência da lei anterior e optou por não a revogar. O tribunal considerou, assim, as duas disposições como passíveis de serem lidas em conjunto, tendo a proibição anterior estabelecido a norma penal subjacente. A cobertura enfatizou que a decisão não resolve imediatamente todas as questões processuais, uma vez que os litígios anteriores e a própria suspensão judicial adiam o momento em que os processos poderiam ser iniciados.
A exceção é restrita e as consequências criminais são graves
A lei revitalizada permite o aborto apenas quando necessário para salvar a vida da doente grávida. Não contempla exceções mais amplas relacionadas com a saúde, anomalias fetais, violação ou incesto. Os médicos que a violem poderão sofrer sanções criminais e perder o direito de exercer a profissão. Isto cria um problema já conhecido noutros estados com proibições rigorosas: mesmo quando existe uma exceção para salvar a vida da paciente no papel, os médicos têm de decidir o quão doente ela deve ficar para que a intervenção seja legalmente protegida.
Os profissionais de saúde defendem que a incerteza pode afectar o tratamento de abortos espontâneos, rotura prematura de membranas, hipertensão grave e outras complicações da gravidez, em que a deterioração pode ser previsível, mas ainda não fatal de imediato. Os defensores da lei argumentam que o estatuto protege a vida fetal e que os médicos continuam aptos a agir em caso de emergências médicas genuínas. O limite legal entre estas posições será provavelmente testado se a lei entrar em vigor.
Os líderes estaduais dividiram-se imediatamente sobre a revogação
A governadora democrata Katie Hobbs condenou a decisão e pediu aos legisladores que revogassem a antiga lei. Num comunicado, o seu gabinete criticou os republicanos da legislatura após uma tentativa de aprovar a revogação ter fracassado na Câmara dos Representantes do estado. A 12 de abril, a governadora reiterou o pedido de ação numa declaração pública, enquadrando a questão como uma ameaça imediata ao acesso das mulheres a cuidados médicos.
As reações dos republicanos dividem-se. Alguns conservadores estaduais apoiam a aplicação da lei de 1864, considerando-a consistente com a política antiaborto de longa data. Outros republicanos, incluindo candidatos que enfrentam eleições renhidas, afirmaram que a proibição é demasiado rigorosa ou politicamente insustentável e defenderam alterações legislativas. Esta divisão reflecte um padrão mais amplo pós-Dobbs, no qual a política estadual sobre o aborto depende cada vez mais de leis locais, iniciativas populares e coligações eleitorais, em vez de uma única regra federal.
Uma disputa eleitoral em novembro está a decorrer em paralelo
Os defensores do direito ao aborto também procuram uma emenda constitucional estadual que protegeria o acesso ao aborto até à viabilidade fetal, permitindo procedimentos posteriores apenas em circunstâncias médicas específicas. Os organizadores estão a recolher assinaturas para a votação de novembro. A decisão do tribunal irá provavelmente intensificar esta campanha, uma vez que os eleitores podem agora comparar a alteração proposta não só com uma restrição de 15 semanas, mas com a possibilidade de uma proibição quase total.
The Guardian noticiou que a decisão colocou imediatamente o Arizona no centro do debate nacional sobre o aborto, com ambos os partidos a preverem que a questão influenciaria a participação nas eleições presidenciais e para o Senado. As implicações políticas são significativas, mas a questão jurídica imediata continua a ser o acesso aos cuidados durante o período anterior ao termo da suspensão.
Até sábado, a aplicação da lei permanecia incerta
A decisão do tribunal não significa que os médicos foram processados esta semana ou que as clínicas suspenderam imediatamente todos os procedimentos. A suspensão de 14 dias, os processos adicionais nas instâncias inferiores e as dúvidas sobre quem tem autoridade para aplicar a lei criam um breve, mas importante, período de incerteza. A Procuradora-Geral do Estado, Kris Mayes, do Partido Democrata, afirmou que não irá processar médicos com base na lei antiga enquanto estiver em funções, embora os procuradores distritais possam ter autoridade independente, dependendo da forma como os tribunais resolverem a questão.
Isto deixa o Arizona com uma discrepância notável entre a clareza da conclusão jurídica do Supremo Tribunal e a incerteza da sua implementação prática. Os juízes afirmaram que a proibição de 1864 se mantém em vigor, a menos que os legisladores a revoguem ou que outra barreira legal impeça a sua aplicação. Os prestadores de cuidados de saúde, os doentes e os procuradores precisam agora de operar enquanto a data de entrada em vigor, o alcance e o futuro desta lei ainda estão a ser contestados.
A partir de sábado, o Arizona aproximou-se de um dos regimes de aborto mais restritivos do país, mas as regras operacionais finais ainda não foram definidas. As próximas duas semanas determinarão se a lei da era territorial entrará em vigor tal como está redigida, se os tribunais a adiarão ainda mais ou se a legislatura intervirá antes do início da aplicação.