A economia dos EUA contraiu-se a uma taxa anual de 1,4% no primeiro trimestre de 2022, a primeira queda no produto interno bruto real desde a recessão causada pela pandemia em 2020. A reversão geral é substancial após um crescimento de 6,9% no quarto trimestre, mas o relatório subjacente é mais complexo do que um colapso generalizado: o consumo, o investimento empresarial e o investimento imobiliário aumentaram, enquanto o comércio, os stocks e os gastos do governo levaram o total a ficar negativo.
A estimativa preliminar do Departamento do Comércio mostra que a queda das exportações, a menor acumulação de stocks e a redução das despesas dos governos federal, estaduais e locais impactaram negativamente a produção. As importações aumentaram acentuadamente e, como são subtraídas no cálculo do PIB, o crescente défice comercial exerceu um grande impacto negativo, mesmo com os consumidores domésticos a continuarem a gastar.
Contração geral, procura interna mais forte
O Departamento de Análise Económica informou que os gastos com o consumo pessoal aumentaram no trimestre, com destaque para o setor dos serviços, à medida que as famílias retomaram as viagens, a restauração e outras atividades presenciais. O investimento fixo não residencial também cresceu, impulsionado por equipamentos, software e investigação e desenvolvimento. Os destaques do PIB divulgados realçam que a contração se concentrou em componentes que podem apresentar volatilidade trimestral.
Esta distinção é importante porque um trimestre negativo, por si só, não configura uma recessão. O mercado de trabalho continua excecionalmente forte. O relatório de emprego de Março mostrou a criação de 431.000 vagas e uma taxa de desemprego de 3,6%, apenas um décimo de ponto percentual acima do nível de Fevereiro de 2020. Os empregadores continuam a reportar dificuldades no preenchimento de vagas e o crescimento dos salários continua elevado.
O Livro Bege de Abril da Reserva Federal descreveu, de forma semelhante, um crescimento moderado do emprego e uma forte procura de trabalhadores na maioria das regiões. As empresas reportaram uma escassez persistente de mão-de-obra e aumentos salariais contínuos, enquanto a pressão inflacionista se manteve generalizada devido aos custos mais elevados das matérias-primas, transporte e mão-de-obra.
O comércio e os stocks causaram grande parte dos prejuízos
O PIB mede a produção interna, pelo que um aumento das importações pode reduzir o número, mesmo quando estas importações reflectem uma forte procura por parte dos EUA. As importações do primeiro trimestre aumentaram enquanto as exportações diminuíram, ampliando o défice das exportações líquidas. As empresas também acumularam stocks mais lentamente do que no último trimestre de 2021, quando a reposição de stocks contribuiu significativamente para o crescimento. O resultado é que duas categorias com grandes oscilações trimestrais impactaram negativamente o número total.
A CBS News noticiou que os economistas, em geral, esperavam um crescimento positivo fraco, e não uma contração declarada. A surpresa aumenta, portanto, a atenção sobre o risco de recessão, especialmente porque a Reserva Federal está a aumentar as taxas de juro para conter a inflação. No entanto, a mesma reportagem observou que a actividade do consumidor e das empresas se manteve relativamente resiliente.
O consumo das famílias está a ser impulsionado por um mercado de trabalho forte, mas pressionado pela inflação mais rápida em quatro décadas. O relatório de rendimentos e despesas de março(Bureau of Economic Analysis), divulgado na sexta-feira, mostrou que o consumo nominal subiu 1,1% no mês, enquanto o consumo real aumentou apenas 0,2% após o ajustamento pelos preços. O índice de preços das despesas de consumo pessoal situou-se 6,6% acima do nível registado um ano antes.
A inflação complica o cenário de crescimento
A contracção ocorre numa altura em que os decisores políticos enfrentam uma combinação invulgarmente difícil: inflação elevada, taxas de juro em rápida ascensão, perturbações na cadeia de abastecimento, a guerra na Ucrânia e novas restrições relacionadas com a COVID na China. Os preços dos bens e serviços adquiridos por residentes nos EUA subiram a uma taxa anualizada de 7,8% no primeiro trimestre, segundo o BEA (Bureau of Economic Analysis). Os preços da energia aumentaram de forma particularmente acentuada.
A Reserva Federal já começou a subir a sua taxa de juro diretora e espera-se que aperte ainda mais a política monetária. Prevê-se que os custos de empréstimo mais elevados reduzam a procura em sectores sensíveis às taxas de juro, como a habitação, o automóvel e os investimentos empresariais. Isto pode ajudar a reduzir a inflação, mas também aumenta o risco de que uma economia que já apresenta um PIB trimestral negativo abrande demasiado.
O Washington Post noticiou que os economistas continuam divididos sobre a importância a atribuir ao resultado do primeiro trimestre. Alguns consideram-no um revés contabilístico causado pelo comércio e pelos stocks; outros vêem-no como um aviso precoce de que a inflação e as condições financeiras mais restritivas começam a enfraquecer a expansão.
O segundo trimestre torna-se o teste
Os próximos meses mostrarão se a contração foi temporária ou o início de uma recessão mais ampla. Uma recuperação das exportações ou a normalização dos stocks poderiam impulsionar o PIB sem exigir uma aceleração significativa da procura das famílias. Por outro lado, outro trimestre negativo, aliado ao enfraquecimento do emprego e das despesas, intensificaria as preocupações com a recessão.
Para já, a evidência mais forte contra uma contracção generalizada é o crescimento contínuo do consumo, do investimento privado e da folha de pagamentos. A evidência mais forte para a cautela é que a inflação está a reduzir o poder de compra real precisamente quando a Reserva Federal se prepara para retirar o apoio monetário.
A queda de 1,4% reflete, portanto, uma economia em transição, e não uma em constante retrocesso. A recuperação pós-pandemia perdeu força, a assistência governamental está a diminuir, as perturbações globais estão a intensificar-se e a política monetária está a tornar-se mais restritiva. A questão económica central de 2022 é se os Estados Unidos conseguirão passar de uma recuperação extraordinária para uma expansão sustentável sem recessão.